Entrevista com Pregador Luo: "Minha música é atemporal" | The Music Journal Brazil | MTV

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Entrevista com Pregador Luo: “Minha música é atemporal”

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Ele é um nome respeitado nas culturas black e hip hop no Brasil e uma das principais vozes da música cristã brasileira. Estamos falando do Pregador Luo que lançou no último dia 5 o seu novo álbum RetransMissão pela Universal Music.

Luo foi um dos fundadores e vocalistas do grupo de rap Apocalipse 16 e já lançou ao todo 14 CD’s2 DVD’s que venderam mais de 1 milhão de cópias. RetransMiSSÃO é o sucessor de Governe! lançado em outubro de 2015 pela mesma gravadora.

O novo trabalho conta com a participação especial do cantor Luciano Claw e da Banda KLB. A contextualidade deste novo álbum é direcionada ao otimismo, fé e amor, além de buscar respostas perante a realidade da vida.

Confira a nossa entrevista com o Pregador Luo:

Você é o precursor do que conhecemos como rap-gospel como se observa no seu trabalho no Apocalipse 16. Como nasceu a ideia de criar esse diálogo entre esses dois gêneros musicais?

Pregador Luo: Nasceu da necessidade por espiritualidade. Percebi que se eu precisava e outros também podiam precisar. Não somos apenas matéria, temos um espírito dentro de nós que tem que ser alimentado. Quando saquei isso fiquei mais calmo e consegui focar melhor na vida e no meu objetivo aqui. A verdadeira religião refreia o crime, liberta de vícios e traz paz exterior também. Os manos estavam se matando na quebrada, nas favelas e nos guetos não havia opções de fé para a rapaziada que não se identificava com aquele discurso preconceituoso e aprisionador da igreja. Aí eu cheguei e isso mudou, eles começaram a ter orgulho da música que curtiam, do estilo de roupa que usavam e entenderam que nossa cultura tem tanto valor quanto qualquer outra. Passaram a não se curvar mais a imposição européia que exige terno, aparência e pensamento formatado. O crime e a futilidade continuam aí no mundão, mas agora existe uma alternativa que mostra que podemos ver Deus de uma maneira mais pura e real, meu trabalho fez isso e louvo ao Senhor pela oportunidade de ser luz.

No seu novo álbum “RetransMISSÃO” você apresenta remixes de sucessos em sua carreira. Como foi a escolha desse repertório e a escolha do título do álbum?

A escolha foi fácil, tratei de preparar minha mente pra não se perder em dilemas, simplesmente pensei nas músicas e decidi que elas eram as mais acertadas para o momento. Já sofri demais pensando no que compor ou escrever, hoje não mais. Eu confio na minha intuição. O título “Retransmissão” veio da demanda por música que não seja descartável. Vou explicar melhor, mesmo que muita gente não conheça meu trampo, já to aí há mais de 25 anos. E reparei que tem músicas minhas de mais de 22 anos que são cantadas por adolescentes de 17 e crianças de 8, 7, 5 anos, ou menos. Para quem me valoriza, minha música é atemporal. O discurso, que é muito mais que imposição doutrinária, realmente, muda vidas. Chegam pais de família nos meus shows na faixa dos 40, 45 anos que se formaram homens curtindo meu som e colocaram seus filhos para escutar desde bebês. Esses garotos chegam nos shows com filhos de 5 anos, ou mais, no colo e essas crianças também já cantam e gostam do meu som. Olha que responsa: pai, filho e neto na mesma sintonia por minha causa. Mais do que um legado, isso é uma Missão, por isso RetransMISSÃO.

Pregador Luo, você conta com convidados especiais como o grupo KLB e o cantor Luciano Claw. Como surgiu a ideia dessas parcerias?

O Claw me acompanha desde que ele era um garoto. Ele é um músico nato. No final dos anos 90, fizemos as primeiras produções juntos num teclado que tinha drive de disquete, onde salvávamos a música lá e eu levava para o estúdio para gravar voz, editar e mixar. Um cara importante desses na minha vida, não podia ficar de fora. O KLB são meus irmãozinhos também. Treinávamos MMA na mesma academia e os conheci em 2004. Em 2006, me chamaram para gravar a música “Obsessão” com eles e a música estourou no Brasil todo. Fui em tudo que é programa de TV com eles e em alguns shows também, ficamos amigos de viajar juntos, de visitar e até deles passarem a frequentar a mesma igreja que frequento. Incluir esses manos e mais alguns outros em meus próximos dois ou três trabalhos já é uma forma de ir se despedindo do rap e aproveitando para estar mais uma vez junto com pessoas que me ajudaram a ser quem sou e a criar um movimento novo. Não vou fazer isso para sempre, daqui mais uns três anos penduro meu mic.

O álbum traz a inédita “Lá Onde Eu Vou Morar” onde a temática aponta para os problemas sociais, mas passando a mensagem de confiança no futuro. Como foi a inspiração para compô-la?

Eu não cultivo a ilusão de dias melhores para a coletividade. Isso acontece um a um, homem a homem, mulher a mulher lutando pelo seu. Não queria que fosse assim, queria ver todo mundo a pampa, morando bem, comendo bem, saudáveis e instruídos. Mas aqui isso não rola, sem chance. Tem uma força oculta que age através da política que transforma homens em putas. Gente que vende seu povo como gado, que estoura com a saúde física e mental da nossa gente. Como ser otimista no futuro do mundo com Trump, Dilma, Lula, Temer no poder e outros boçais da mesma estirpe dominando o mundo? Não tenho mais confiança nenhuma nessa zorra. Nesse som eu tô literalmente falando do Céu, bom lugar que Sabotage também cantava. Enquanto tô aqui faço minha parte, mas quero sair dessa dimensão quanto antes e ir para aquela que Jesus me prometeu.

Como você analisa o rap brasileiro nos dias de hoje?

Sei lá, cada um canta o que quer e já era. Quase morri no início dos anos 2000 por dar opinião, tentaram me matar por eu dar uma ideia saudável, acredita nisso cara? O rap aqui é pequeno, podia ser muito maior. Mas querem pagar de cão e ser coadjuvantes. Vou meter a Glória Pires nessa, não me sinto capaz nem com vontade de opinar. Faço o meu e já era.

 

“Para quem me valoriza, minha música é atemporal. O discurso, que é muito mais que imposição doutrinária, realmente, muda vidas.”

 

 

Você tem desenvolvido temas de entrada para os principais atletas do MMA no exterior. Como surgiu essa oportunidade em sua carreira?

Da minha percepção de mercado. Eu treino e senti necessidade de ter um som motivacional focado para as artes marciais e esportes em geral. Fui conhecendo os feras do MMA e eles foram me pedindo musicas. Então, em 2008 nasceu o “Música de Guerra” que foi o primeiro álbum com a temática das artes marciais. Dia 23 de setembro, estarei com os irmãos Pitbull na Califórnia. O Patrick Pitbull vai disputar o cinturão do Bellator contra o Ben Henderson, vou entrar cantando com o Pitbull e vamos aproveitar para gravar um clipe em Los Angeles.

Quais são suas referências musicais?

Stevie Wonder, Jorge Ben Jor, Tim Maia, Afrika Bambaataa, MC Jack, Thaíde e DJ Hum, Guilherme Arantes, Public Enemy, LL Cool Jay, NWA, Camisa de Vênus, James Brown, Sting e The Police, Engenheiros do Hawai, Legião Urbana, Cazuza, Elis Regina, Adhemar de Campos, Mahalia Jackson, Ndee Naldinho, Racionais… muita gente desse modelo, a lista é longa.

Dentre as 18 canções de Retransmissão, tem alguma pela qual você tem um carinho especial?

A faixa “Arrependa-se”. Ela foi também o título do meu primeiro álbum em 1997. O João Marcelo Boscolli na época sugeriu que eu mudasse o nome. Ele ainda brincou: “Arrependa-se de quê, de ter comprado o disco?” Hoje, mais de 20 anos depois, um monte de gente que na época também achou a ideia engraçada, concorda com o que eu falo na letra e até virou crente também. Essa música é a síntese do Evangelho e eu a canto cada vez mais convicto.

Em 1998, você abriu o show do Racionais MC’s no MTV Video Music Brasil. Como aquele momento foi determinante para a sua carreira?

Para carreira não mudou em nada, quase ninguém sabe que sou eu ali. Me mudou como pessoa. Eu tive coragem de ir ali, na cara da nata da música e pregar o Evangelho de Jesus, vi que pude influenciar o maior grupo de rap do Brasil a influenciar outros e sou grato a eles pela oportunidade. Não tremi na base diante daquela responsa, fui sujeito homem e aquilo me deu forças para continuar na minha Missão. Conheci vários caras que admirava e tive desilusões nos camarins quando fui manifestar meu amor para alguns artistas que me tiraram para nada. Mas sou grato até por isso, pois ali morreu a ilusão que eu tinha de que todo mundo era bonzinho, me liguei que muito monstrão da música só tem fachada bonita e que vários são apenas marketing. Dalí em diante eu me senti pronto para o que viria pela frente.

Pregador Luo por Pregador Luo:
Aprendiz.

É jornalista e pesquisador musical. Cobre shows nacionais e internacionais e já entrevistou bastante gente interessante do Brasil e do mundo. Foi vencedor do Prêmio TopBlog Brasil em 2010 na categoria "Música"e é membro do Grammy Latino.