JAZZ SOUL R&B

Entrevistamos o cantor Andre Gimaranz

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Depois de um longo período de 25 anos atuando como músico nos EUA, Andre Gimaranz retornou ao Brasil para lançar seu último trabalho de estúdio, intitulado Supermoon. O cantor e compositor brasileiro conversou com o The Music Journal Brazil para falar sobre o processo criativo de seu novo álbum e de sua grande experiência nos caminhos do blues, jazz e rock. Confira:

Marcelo de Assis: Porque a escolha de Supermoon para o título do seu novo trabalho?

André Gimaranz: Para mim é sempre difícil dar o nome de um trabalho. Essa música é uma letra do meu parceiro Paul Serran, a música é minha, e ela teve uma história interessante no disco porque ele me mandou essa letra pelo WhatsApp e em 1 hora e meia ela já estava pronta. Exatamente do jeito que ela é. Ela saiu muito fácil assim e é uma música que eu particularmente gosto porque ela tem uma coisa diferente no inicio com xaxado, uma coisa meio nordestina com triângulo e eu achei o nome super sonoro, uma coisa sintética e acabei acreditando que seria um bom nome para o disco também.

Marcelo de Assis: A produção foi assinada pelo Cadu Menezes, que já trabalhou com o Kid Abelha, Lobão e com grande experiência no rock nacional. Como que o trabalho dele agregou às suas composições e qual foi o diferencial dele na gravação de cada faixa?

André Gimaranz: O Cadu é um produtor extremamente disciplinado, detalhista. Ele é baterista também, tocou bateria nos meus dois discos e toca comigo nos meus shows, mas ele é super detalhista desde a pré-produção, produção, mixagem, masterização e essa visão dele é mais pop rock do que eu tenho. A minha visão é mais voltada ao blues, jazz e rock. Isso dá uma arejada no meu trabalho. Algumas partes dos arranjos você confere algumas percussões em algumas canções e a forma de conduzir a produção em estúdio mostra como o Cadu é muito preocupado com detalhes, com precisão de execução… Eu acho que isso agregou muito, tanto no primeiro disco como neste. Ele é um cara que faz questão de que as coisas estejam em sua lugar, tudo muito certo. Eu acho que quem toca um pouco mais de jazz e blues tem uma tendência a improvisar muito no que faz e ele gosta das coisas muito preparadas, ensaiadas.

Marcelo de Assis: Rendeu uma química perfeita, em síntese, não?

André Gimaranz: É. Deu um equilíbrio muito bacana!

Marcelo de Assis: Você fez uma regravação do Paulinho Moska em Admito Que Perdi e outra do Chico Buarque no clássico Construção. Como que surgiu essa vontade de realizar essas releituras?

André Gimaranz: Admito Que Perdi é uma canção que eu gosto há muito tempo. Desde quando ele lançou originalmente e quando a Marina Lima gravou, eu sempre toquei ela desse jeito. Foi natural para mim. Ela saiu com essa vibe. E de vez em quando eu colocava ela em shows, então, ela nasceu mais ao vivo do que em estúdio para mim. Ela nasceu ao vivo. É uma música que fica grande, com 8 ou 9 minutos porque entra um solo grande que faço ou abro espaço para um instrumento de sopro e todo mundo acaba gostando, então eu pensei: “Vou gravar!”. Ela sempre teve uma cara de jam session e eu achei que a versão que colocamos no disco é mais contida. Mesmo assim ela ficou bem jazz e achei bacana. E Construção é uma canção que tem uma harmonia interessante embora ela tenha essa construção com um conjunto de acordes que se repetem, mas ela é muito interessante. Ela parece uma canção muito linear quando você escuta, principalmente no arranjo original.

 

“A música brasileira é tão rica, porque sempre fomos abertos a todo o tipo de influência musical”

 

Marcelo de Assis: Essa aura da apresentação ao vivo e da liberdade que o músico tem no palco, deve ser algo bem complicado em um processo de gravação em estúdio, quando você precisa reter alguns elementos. Esse não foi um processo “dolorido”?

André Gimaranz: Sempre é, né? (risos) A vontade é colocar a versão ao vivo no disco que sempre fazemos. Mas não tem jeito. Ela ficou uma canção um pouco mais longa do que normalmente se coloca no disco. Quando você decide gravar tem que dar um formato assim a não ser que você opte por um conceito diferente.

Marcelo de Assis: Você tem bastante influência daquela fase setentista do rock. Jimi Hendrix é a sua influência direta?

André Gimaranz: Eu acho que na minha geração, pelo menos de guitarristas, foi inevitável você não ter sido influenciado. Ao menos que você não goste do gênero de jeito nenhum. Ser um cara que não suporte nada ligado a blues e rock. Mas fora isso, na minha geração, era quase impossível você tocar guitarra no blues, rock ou jazz sem que Jimi Hendrix fosse uma influência. Assim como Jimmy Page, Eric Clapton, que são guitarristas do mesmo conceito, Steve Vai, Eddie Van HalenSão guitarristas que criaram uma determinada forma de tocar guitarra. Então essas influências do final dos anos 1960, inicio dos 1970, foram inevitáveis que aparecessem no que estou fazendo.

Marcelo de Assis: Você atuou como músico durante 25 anos nos EUA. É mais fácil um músico brasileiro trabalhar com o blues e o jazz por lá?

André Gimaranz: Ah eu acho que sim. Infelizmente é. É estranho porque a consumimos música norte-americana, inglesa o tempo todo sem nenhum preconceito. Aliás, é isso que fez a música brasileira ser tão rica, porque sempre fomos abertos a todo o tipo de influência musical. Sempre fomos muito abertos a isso. A diferença que existe é que no mercado norte-americano existe ainda, e sempre vai existir, o consumidor de rock, de blues que tem seu mercado menor. Não vão tocar em uma arena de 70 mil pessoas mas existem muitos locais para tocarem.

Marcelo de Assis: E sua agenda para os próximos shows?

André Gimaranz: A ideia é levar nossos shows para São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba e Porto Alegre. E voltar ao Rio em 2018.

É jornalista e pesquisador musical. Cobre shows nacionais e internacionais e já entrevistou bastante gente interessante do Brasil e do mundo. Foi vencedor do Prêmio TopBlog Brasil em 2010 na categoria "Música"e foi membro do Grammy Latino.