ELETRÔNICA

Entrevista com a DJ Cady: “Nothing Wrong é uma nova forma de olhar a vida”

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A cantora, compositora, produtora e DJ Cady lançou nesta sexta-feira (27) o seu novo single Nothing Wrong pela Universal Music, via Liboo com distribuição digital global.




Para falar deste lançamento, a artista realizou uma entrevista exclusiva com o jornalista Marcelo de Assis para o The Music Journal Brazil onde ela também fala de sua carreira, de sua relação com a cunhada Ivete Sangalo e da concepção do single, onde a “letra é empoderadora e foi escrita para mostrar a todos sua magia e as infinitas possibilidades de escolha que temos”.

Confira:

Marcelo de Assis: Você acaba de lançar o single Nothing Wrong e eu gostaria de saber como foi a concepção dele e como se inspirou para compor ele?

Cady: Tristeza e frustração! Eu estava triste, frustrada em uma tarde e como sou uma pessoa muita alegre, muito feliz, cheia de vida e realmente não estava sendo eu naquele momento. Então, peguei papel, lápis e comecei a perceber que com certeza eu não era a única pessoa nesse planeta que estava sentindo aquilo. E através do que eu estava escrevendo, eu senti que, de alguma maneira, poderia contribuir para ajudar quem também estivesse passando por aquele momento. Então, nasceu a música.

Marcelo de Assis: E como foi colocar toda essa melancolia nela? …

Cady: Porque eu sou alegria e a música é muito alegre! Então, a intenção era exatamente essa, transformar a tristeza em alegria.

Marcelo de Assis: Para um artista que está acostumada sempre trabalhar com entusiasmo e de repente tem que gravar uma canção, de uma forma até autobiográfica, sobre um determinado momento de melancolia e dentro de uma atmosfera musical vibrante … não foi uma forma de andar na contra-mão naquele momento?

Cady: Olha que interessante sua pergunta: eu já escrevo música há muitos anos, canto há muitos anos e eu nunca tive coragem de lançar nada!

Marcelo de Assis: Porquê isso?

Cady: Total julgamento do que eu fazia! Nothing Wrong foi o momento de ruptura porque parei de jugar e quando a gente sai desse julgamento e começamos a permitir que aquilo que estamos sentindo é o que podemos dar naquele momento é uma forma de dar um passo além. Então depois dessa ruptura, eu comecei a respeitar mais a minha capacidade e ser mais verdadeira comigo e tudo bem! Existem várias músicas de momentos difíceis na minha vida, as quais eu não compartilhava com ninguém porque todos sempre me viam alegre, sorrindo, então eu ficava com receio. “Então eu vou estimular tristeza nas pessoas?” E aí eu não lançava nada, porque vivia julgando o que eu criava. E quando percebi que tudo isso estava impedindo de eu desenvolver minha criação na carreira, as músicas que eu queria compartilhar com as pessoas, eu parei. Que bobeira né? Hoje eu me encontro em um espaço de total liberdade. Eu acredito que há beleza em tudo!

Marcelo de Assis: Se conectarmos a mensagem de Nothing Wrong com essa ruptura, então ela estaria refletindo em uma pessoa que, mediante uma situação contrária,  apenas adquiriu uma forma diferente de olhar para a vida?

Cady: Completamente isso! …

 

 

 

“Hoje em dia você tem uma dinâmica que te proporciona a continuar em turnê e trabalhar novidades, além do alcance gigantesco que antes não era possível. O digital faz parte dessa evolução”

 

 

 

 

Marcelo de Assis: Você trabalhou com John Digweed (Bedrock). Me conte mais sobre essa experiência …

Cady: Foi minha primeira música! Eu vivia lá fora, voltei para São Paulo, gravei em um estúdio de um amigo meu, extremamente capaz, inteligente e a gente se unia. Eu me recordo que foi bem no inicio, quando fiz uma música com vocais africanos e o nome da música passou a se chamar Macumba Beats. E bombou!

Marcelo de Assis: tinha tudo a ver com aquela atmosfera da Bahia …

Cady: Sim. Bombou! O John Digweed estava abrindo o set dele com a minha música!

Marcelo de Assis: Como foi essa sensação?

Cady: Foi surreal porquê eu não imaginava que tudo isso poderia acontecer! E eu sempre me vi muito no mainstream e isso me deixou em certo conflito: “Poxa, mas é bem underground!”. Mas fiquei muito feliz em ver que um cara desse nível estava estava abrindo o set dele!

Marcelo de Assis: Você escuta muito música eletrônica?

Cady: Não muito …

Marcelo de Assis: O que de fato você escuta?

Cady: Eu escuto Led Zeppelin, Rolling Stones... eu escuto rock!

Marcelo de Assis: A sonoridade que se apresenta no seu novo single, não tem muito a ver com isso … esse tipo de referência musical …

Cady: Vai chegar!

Marcelo de Assis: O que temos mais para frente?

Cady: Eu tenho muita referência. Meu pai, eu sou muito grata a ele! Ele escuta de tudo e eu cresci ouvindo isso. Quando eu era pequena, meu pai tinha duas entradas de fone, uma para ele e outra para mim. Eu amo de Donna Summer a Bob Marley, Novos Baianos … esses sons me trazem a memória da pureza da minha infância e estou doida para poder recriar tudo isso.

Marcelo de Assis: Além dessa experiência com o seu pai, a Ivete Sangalo, que é sua cunhada, ela vem de um mercado musical que operava com mais abrangência o formato físico e você está produzindo um single para um mercado digital. Com essa proximidade com a Ivete, você tem esse tipo de vivência. Como você analisa esse mercado nos dias de hoje?

Cady: Houve a possibilidade de muitos artistas que não se sentiam apoiados de repente emergiram e criaram seu espaço. Antigamente eles passavam meses para lançar um álbum – ninguém lançava só single – e hoje em dia você tem uma dinâmica que te proporciona a continuar em turnê e trabalhar novidades, além do alcance gigantesco que antes não era possível. O digital faz parte dessa evolução.

Marcelo de Assis: A música eletrônica está em franca expansão no século atual em decorrência da exponenciação do mercado digital. Você acredita que com todos esses atributos, você entra no momento certo de sua carreira?

Cady: Eu tenho total certeza que este é o momento certo. A música eletrônica, principalmente em nosso país, não tinha tomado o rumo que tomou agora.

Marcelo de Assis: As suas próximas composições serão autobiográficas? Será um estilo de composição ou coisas fictícias também serão criadas?

Cady: Tem muitas coisas que hoje em dia eu não vejo mais problema em compartilhar e posso criar histórias que eu não vivi e posso criar. Não tenho limite para criação. A próxima que lançaremos, na verdade, é uma regravação de uma música famosa, um remix lindo ….

Marcelo de Assis: Aliás, é inevitável questionar se com a Ivete Sangalo você gravará um novo single …

Cady: Eu acho inevitável criarmos alguma coisa juntas. É muito amor que a gente tem! Muita admiração …

Marcelo de Assis: Vocês conversam muito?

Cady: Sim, sim … Ela é tudo aquilo que você vê! Ela é exatamente aquilo! É uma pessoa que, se você precisa dela, ela está lá! É surreal! Sou apaixonada pela pessoa dela! (emocionada)

Marcelo de Assis: É muito forte isso …

Cady: (emocionada, em pausa) …. Eu me sinto tão abençoada, tão abençoada, de conviver com uma pessoa como ela. Não deixa a desejar de qualquer outro familiar nosso ou de amigos, mas porque ela tem tudo aquilo que julgamos ser importante. E mesmo com tudo isso ela mantém a simplicidade e a verdade dela. Isso para mim é inspirador e eu sei que ela não está na minha vida por acaso. O máximo que eu puder aprender com ela, para a minha carreira, eu vou atender. O carinho que ela tem pelas pessoas, de ser humana, isso para mim é o que faz ela ser ela. Todos os que convivem comigo sempre me passam alguma coisa. Conviver com ela é exatamente isso!

Marcelo de Assis: Para um artista, um trabalho realizado é como um “filho” dele. O que vem por aí?

Cady: Marcelo, esse filho já ganhou perna, já ganhou o mundo, não tenho controle não. Sou uma mãe feliz e orgulhosa! Tem muita coisa que vem por aí!

É jornalista e pesquisador musical. Cobre shows nacionais e internacionais e já entrevistou bastante gente interessante do Brasil e do mundo. Foi vencedor do Prêmio TopBlog Brasil em 2010 na categoria "Música"e foi membro do Grammy Latino.