Caetano Veloso

Entrevista com Caetano Veloso: “Fico feliz de estar com os meus filhos no palco”

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O cantor Caetano Veloso e seu filho Zeca estiveram reunidos com a imprensa na noite desta terça-feira (22) em São Paulo para divulgar o novo álbum Ofertório, projeto familiar gravado ao vivo em outubro de 2017 no Theatro Net São Paulo como parte do show Caetano Moreno Zeca Tom Veloso. O novo registro tem lançamento em CD, DVD e formato digital pela Universal Music.




Ofertório, faixa-título do novo álbum, é uma música que Caetano Veloso escreveu para a sua mãe, Dona Canô (1907-2012).

Em um bate-papo descontraído, Caetano e Zeca falaram sobre o novo trabalho e como aconteceu a concepção de Ofertório: “Surgiu na minha cabeça, sozinho, pensando em coisas que eu tinha vontade de fazer”, disse Caetano. “Moreno vem trabalhando com música há anos, ele é formado em física, chegou até a trabalhar na preparação do laboratório de partículas sub-atômicas da UFRJ, mas ele foi cada vez mais chegando na música e profissionalizou como música. O Tom já tinha entrado na banda Dônica com os colegas deles, ultra-capazes musicalmente e ele se desenvolveu muito e já tem uma banda nova sendo apresentada. O Zeca tinha trabalhado um pouco com música eletrônica, mas depois ficou parado e ficava em casa fazendo algumas canções, as vezes no piano, as vezes no violão e as vezes não completava… ainda tem umas que ele não completa..” explicou sorrindo.

Caetano Veloso também revelou o sentimento de um pai que sempre teve o anseio de dividir o palco com os filhos e que o show foi uma forma de reaproximá-los de seu convívio: “Foi uma delicia porque quase viramos uma banda. E foi isso e para mim é uma felicidade. Se tem uma coisa que é capaz de me dar felicidade é sair com eles. É um truque, porque os filhos crescem e vão ficando distantes. Moreno já tem dois filhos, tem a família dele, tem o trabalho dele, enfim, vão crescendo e tendo vida própria. Ai eu acho que também quis fazer esse show para tê-los perto de mim, mesmo adultos”, disse.

 

 

“Se tem uma coisa que é capaz de me dar felicidade é sair com eles” – disse Caetano, sobre dividir o palco com os filhos.

 

 

 

O repórter que aqui escreve, questionou Caetano como o seu momento atual com os filhos, dividindo o palco com eles,  poderia funcionar como um resgate de quando ele iniciou a carreira, revisitando todo aquele período e como ele encarava isso emocionalmente. A resposta se transformou em um bate-papo entre pai e filho:

Marcelo de Assis: Caetano, você falou agora desse processo de se apresentar com os filhos. E como é o lado emocional disso e vendo eles agora com você no palco, isso resgata de alguma forma, a sua juventude quando você iniciou a sua carreira?

Caetano Veloso: Também! Isso é um dos componentes do repertório emocional dessa experiência. Eu fico muito feliz de estar com eles, né? Houve também emoções difíceis… Por exemplo, a gente ensaiava e nos somos muito próximos, convivemos e tal, e ensaiávamos e tem muitas musicas eram novas, muitas inéditas. Essa que o Zeca cantou logo que chegamos aqui, por exemplo, é uma das inéditas e nós não sabíamos qual reação que as pessoas teriam diante de tantas canções inéditas, porque nós não somos uma banda profissional onde ele (Zeca) é o contrabaixista, o Tom é um guitarrista e de repente o Moreno é um violinista… não chega a ser isso, mas todo mundo toca o suficiente para ter um negócio que é só nosso, que só nós podemos fazer. Então, tínhamos um pouco de medo. Eu estreei com muita tensão, assim.. com medo. Fiquei nervoso a beça, mas a reação foi mais parecida com que eu sinto de bom no que estamos fazendo do que com os temores.

Zeca: Comigo foi algo parecido com o meu pai também. É uma alegria enorme estar nesse projeto, estar no palco com eles mas também foi bastante trabalhoso para a gente chegar a conseguir entregar o show na estreia. Até uma semana antes do show, nós mudamos o show uma semana antes e eu acho que depois do meu pai talvez, eu fiquei mais nervoso porque eu ficava preocupado com o que ia acontecer, se estaria bem feito e Tom e Moreno acho que estávam sempre confiantes, de bom humor …

Caetano: … olha, eu vou lhe dizer, Tom sempre parece que nunca está nervoso e nem grilado com coisa alguma. Tem até uns pedaços na edição do DVD que o Tom aparece em um relaxamento total. Mas quando todos nós conversamos, ele diz que é o que fica mais nervoso, fica nervoso todos os dias… até parece!

Zeca: Eu acho que eu fico mais nervoso, porque, eu não estava preparado. Nunca fui e ainda não sou um músico profissional e acho que agora depois de 30 shows estou tocando mais seguro. Mas eu ficava muito nervoso e ainda fico …

Caetano: Mas você fazia tudo direitinho e continua fazendo, só que mais relaxadamente. Agora, o que aconteceu, principalmente, é que você, nos últimos dias perto da estreia, você tomou a responsabilidade de orientar as mudanças que achávamos que deveríamos fazer, tanto em ordem quanto no repertório e ele (Zeca) foi o nosso guia.

Zeca: Mais ou menos …

Caetano: É… deu dicas assim que definiram a forma que o show ficou. Na verdade não mudou quase nada mas mudou quase tudo, entendeu? (risos). É porque você tira uma música daqui coloca outra ali, sugere uma que não estava no repertório, que muda muito, então são coisas que vão definindo um show diferente.

Caetano também fez uma análise sobre o funk carioca e o artista acredita que existe uma “desqualificação total” com o gênero: “A história do funk carioca já é velha e enfrentou resistência de preconceito há muito. Desde o começo, eu vi na imprensa, reações assim com desqualificação total de críticos respeitados e tal.. E no entanto, tem um livro do Hermano Vianna, que já é um livro velho, um clássico, e conta a história da formação do funk carioca, aquela mudança de colocar música estrangeira e começar a produzir nas próprias favelas.. eles pegavam o Miami Base para dançar e começaram a imitar este som e colocaram um outro ritmo dentro do Miami Base. Mas a presença do funk, que no principio era carioca, hoje é ate mais predominantemente paulista e ganhou muitos espaços de silencio na levada, mais experimentais.

Questionado sobre quais artistas do mundo pop ele costumava ouvir, o célebre cantor e compositor de 75 anos foi enfático: “Eu adoro a Rhianna, mas tenho muito mais interesse em Ludmilla e Anitta do que em Rhianna. É pelo Brasil“, concluiu.

Caetano, Moreno, Zeca e Tom Veloso se apresentam na capital paulista nos dias 25 e 26 de maio no Espaço das Américas em São Paulo.

É jornalista e pesquisador musical. Cobre shows nacionais e internacionais e já entrevistou bastante gente interessante do Brasil e do mundo. Foi vencedor do Prêmio TopBlog Brasil em 2010 na categoria "Música"e foi membro do Grammy Latino.