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Entrevista com Alice Caymmi: "Estou sempre em reconstrução" Entrevista com Alice Caymmi: "Estou sempre em reconstrução"

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Entrevista com Alice Caymmi: “Estou sempre em reconstrução”

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Dona de um talento extraordinário que desde sempre habita o DNA de sua célebre família, a cantora e compositora Alice Caymmi concedeu uma entrevista exclusiva ao The Music Journal Brazil para falar sobre o seu novo trabalho, o EP Dizem Que Sou Louca que chega ao mercado com quatro versões da faixa Louca e já está disponível em todas as plataformas digitais pela Universal Music via Flecha de Prata Edições Musicais.




Neste bate-papo, Alice fala sobre a concepção de novo trabalho, de seu processo criativo por ser uma artista conceitual e os desafios que ela encontra nesta esfera.

Dona de uma criatividade ímpar, ela cria uma conexão entre a música e o audiovisual transformando em algo uníssono, realizando um trabalho diferenciado e moderno no mercado musical brasileiro que, para o bem da arte, traz em suas palavras o significado de um ciclo: “Tudo o que eu faço, é um alimento para um futuro trabalho”.

Confira:

Marcelo de Assis: Alice como foi a concepção deste novo EP “Dizem Que Sou Louca”?

Alice Caymmi: Este é um EP de versões da música e eu fiz uma versão acústica, uma versão a capella e um remix bem legal junto com João Brasil que é bem dançante e que é um grande presente para os fãs que querem dançar e tudo mais. Eu tinha planejado isso para o final do ano passado, porque é realmente um presente que estou dando para eles pelo tempo em que eu não pude trabalhar o single na época. Então, estou trabalhando bastante ele e fechando com esse matéria para que eles possam tirar o máximo de proveito possível e imaginável dessa música que eu vi que comoveu e ajudou muita gente.

Marcelo de Assis: Você criando esse tipo de extensão de seu trabalho, como você mesma disse, um presente para os fãs, isso poderia influenciar ou impulsionar os seus futuros trabalhos?

Alice Caymmi: Sempre, sempre! Tudo o que eu faço, é um alimento para um futuro trabalho. E como eu estou em reconstrução – porque toda as vezes em que estou entre um álbum e outro, temos que nos “destruir” para nos “reconstruir” – como os artistas que trabalham com conceito e com forte criação em todos os sentidos, precisam se se destruir primeiro – ainda estou tirando a última pena do corpo para poder me renovar, para que eu possa voltar e como não há um caminho apontado certo, eu não tenho como dar uma prévia para dizer onde eu vou. Não há um trabalho a ser lançado que, tem claro, tudo haver com esse e, enfim, eu continuo sendo a Alice conceituado e intérprete que todo mundo gosta.

Marcelo de Assis: De fato. E desde o começo quando comecei a acompanhar o seu trabalho, vejo que você faz algo completamente diferente no mercado musical brasileiro por ser uma artista conceitual. Você já nasceu com isso ou era algo que você projetou no futuro?

Alice Caymmi: Eu não sabia que eu ia chegar nesse nível de conceituação e concepção de cada obra que eu tivesse. Eu sabia que eu iria trabalhar com música mas não sabia que era isso. Mas o interesse pelas obras conceituais sempre existiu em mim. O fato de eu ser fã da Bjork desde criancinha já mostra isso, as coisas de arte contemporânea que eu pedia para ir quando era criança já diziam isso, as exposições, os artistas que eu gostava desde cedo… a minha relação com as artes plásticas é muito forte, a minha relação com a performance é muito forte, então, eu sempre fui, bem ou mal, um ser conceitual. E eu acho que meu avô ele tinha isso, mas não essa coisa camaleônica, porque ele viveu em uma época em que não precisava se reinventar tão rápido. E ele tem uma obra tão genial, que ele não precisou reinventar absolutamente nada porque ele criou. É como se ele tivesse criado o “feijão-com-arroz”, sabe?

Marcelo de Assis: Ser artista conceitual, naturalmente, sofre algum tipo de pressão nesse sentido, Alice? De se reinventar a todo o momento?

Alice Caymmi: Totalmente! Me sinto totalmente pressionada. Tem épocas que eu tenho vontade apenas de ficar nua em uma casa de campo, criar galinha e acabou, porque cansa! É uma coisa difícil mas é da minha personalidade isso. Quando eu falo, “Vou dar uma descansada!”, daqui a pouco eu vejo estou criando uma situação nova: ou um disco novo, ou um show novo ou um projeto.

Marcelo de Assis: Esse novo EP abre com Spiritual e essa faixa dialoga muito com seus registros audiovisuais. Muitas dessas coisas as quais você projeta tem haver com crença? Em outras palavras: qual é a sua crença?

Alice Caymmi: A minha religião, a minha vida, o meu caminho é o caminho dos Orixás. Eu nasci no Candomblé e cresci na UmbandaEntão, eu não vivo sem um apoio e sem o suporte dos Orixás e eu sou praticamente mesmo na religião. Não tem nada holístico tipo, “ah, eu acho curioso”. Não, é a vida vivida dessa forma mesmo e dedico muito do que consegui até hoje a eles. Meu avô era assim também, que é uma coisa que eu faço completamente igual ao meu avô e, sim, a vida espiritual permeia muito a minha vida artística o tempo inteiro. Até onde não há citações diretas, há citações indiretas muito fortes.

Marcelo de Assis: Em janeiro de 2018 você lançou seu terceiro álbum Alice e contou com vários nomes como Rincon Sapiência, Pablo Vittar, Cléo e Ana Carolina. Como nasceu a ideia deste álbum?

Alice Caymmi: Cara, esse álbum foi um trabalho que eu nunca demorei tanto para fazer. Levei um ano para fazer este álbum e, assim, foi um álbum feito a muitas duras penas porque eu estava em muito sofrimento, tive problemas pessoais muito fortes e ele foi feito em cima de muita, muita dificuldade. Nunca pensei que fosse passar tanta dificuldade assim …

Marcelo de Assis: Esse álbum acaba refletindo essa fase difícil? Seria um desabafo?

Alice Caymmi: Ele não é um desabafo, muito pelo contrário: ele é uma tentativa de mudança de assunto. As únicas faixas que falam realmente sobre sofrimento é Inimigos, que tem uma participação do Rincón Sapiência, e Spiritual. Toda a parte mais pop foi uma tentativa de desvirtuar um pouco, porque eu sempre cantei o meu sofrimento com muita facilidade, mas eu nunca sofri tanto. Então, eu não consegui. Agora que estou me refazendo é que eu tenho certeza que vou conseguir vir com força total de novo com mais facilidade.

Marcelo de Assis: Então esse álbum foi uma experiência para que as dificuldades que você enfrentou, viessem a te conduzir a você aprender a lidar com essas emoções e desaguarem em suas composições e hoje você teria mais “equipamentos”, por assim dizer, para poder implementar essas emoções dentro de uma composição?

Alice Caymmi: Isso, exatamente! Exatamente! Estão mais “armadas” e mais fortes!

 

 

“A minha relação com as artes plásticas é muito forte, a minha relação com a performance é muito forte, então, eu sempre fui, bem ou mal, um ser conceitual”

 

 

 

Marcelo de Assis: O que teremos da Alice Caymmi para 2019?

Alice Caymmi: Estou preparando coisas para o verão. Darei uma repaginada no meu show que eu venho fazendo, do disco Alice, vou dar uma mexida nele porque, enfim, acho que temos que ir mexendo nos repertórios e ir renovando ele e eu não consigo cantar a mesma coisa tanto tempo, sabe? É um show mais alegre, é um show de verão, combina com ele. E além disso estou em um momento de honrar a memória do meu avô muito forte, então é muito capaz que eu participe de outros projetos ligados à memória dele com mais frequência neste ano.

Marcelo de Assis: Alice, você já enfrentou uma grande barreira por ser uma artista conceitual? Como que é isso no Brasil?

Alice Caymmi: É só você analisar minha trajetória! Eu fiz um disco que será moderno por mais uns dez anos no mínimo que é o Rainha dos Raios e ele hypou. Mas aí ele ficou no hype e não é isso aí! Ele é um disco de quebra de paradigmas e tudo mais. O Alice, por exemplo, poderia ter sido muito mais compreendido e entendido e ele não foi. As pessoas não entenderam. O pessoal acolheu, o meu público aumentou, os meus números aumentaram, porém não sinto que as pessoas tenham entendido. E continuo sentindo que as pessoas não entendem tudo. Aí eu fico: “Vou parar de entregar tudo isso?”, sabe? As vezes fico pensando assim, se eu “vou parar de entregar tudo isso porque ninguém se importa” ou “eu vou entregar tudo isso, porque eu vivo assim e é assim que eu faço as minhas coisas”. Eu nunca fiz arte conceitual por causa de público, até porque ninguém decide ser conceitual por causa de público. Teoricamente na cabeça dos caretas, conceitual não atinge o público. Mas atinge sim! Não sei se é falta de contato com esse tipo de arte, porque existe um mercado alternativo né? E esse mercado alternativo é muito engraçado, porque a pessoa vai e dá um hype no eixo Rio-São Paulo. Aí esse hype do eixo Rio-São Paulo dá uma subida para o Nordeste. Aí algumas pessoas ficam sabendo, mas ainda não é a compreensão do seu trabalho, entende? Acho que o trabalho conceitual não “cola” muito mas eu faço do mesmo jeito e não me importo mais.

Marcelo de Assis: Você é muito fã da islandesa Bjork …

Alice Caymmi: É uma que ninguem nunca entendeu e continua não entendendo!

Marcelo de Assis: O mundo não entendeu esses artistas conceituais ainda?

Alice Caymmi: Não, não entendeu mas eu posso falar da Bjork assim: ela tem “zero” energia de incompreendida, sacou? Ela está realmente, efetivamente pouco se fodendo! E ela tem o público dela, faz o negócio dela do mesmo jeito e, enfim, e é uma artista internacional maravilhosa, bilionária: ganhou uma ilha da Islândia. É como um presente pelo o que ela fez pelo país. Ela faz exatamente o que ela quer e a música dentro da cabeça dela é aquilo que vai continuar sendo e acabou. Óbvio que ela tem o planejamento para os fãs dela, óbvio que ela tem presentes que quer dar, óbvio que ela sabe que determinadas canções vão tocar mais o público ou não. Tanto que ultimamente ela tem feito disco atrás de disco para tentar curar um término de casamento, que foi mortal para ela, e ela não para de fazer os discos. Ela interrompe uma turnê no meio e fala “não consigo mais cantar esse disco!”. Faz outro! Ela não segue leis de mercado malucas. Ela é imprevisível. Claro que eu não quero ser uma pessoa completamente imprevisível, mas ao mesmo tempo eu me recuso, cara, eu me recuso na minha vida a ir em reunião de gravadora pra ela me dizer qual é o próximo passo. Isso eu tenho pavor!

Marcelo de Assis: No começo de carreira você chegou a se apresentar no Canecão …

Alice Caymmi: Isso. Há 14 anos!

Marcelo de Assis: A Alice Caymmi daquele momento para hoje: o quanto ela mudou?

Alice Caymmi: Cara, dali … é engraçado porque estou tentando voltar pra lá … A gente sempre tenta retornar ao inicio, mas nunca seremos criança de novo. Aquele foi o dia mais feliz da minha vida!

Marcelo de Assis: O que significou tanto?

Alice Caymmi: Eu descobri que eu amava aquilo! E eu descobri que estava sozinha, que eu poderia fazer o que quisesse! Não tinha meu pai, minha mãe, não tinha ninguém! Eu estava na coxia e eu ia entrar em cena. Aquele lugar era só meu, então, percebendo que aquilo era pra mim, nossa, a minha vida funcionou mais fácil para mim em diante. E eu acho que eu tenho que recuperar isso. E depois fui fechando, fechando, fechando como todo adulto. E fui entendendo e não entendendo, reconhecendo e não reconhecendo aquele espaço como meu. Porque a gente sofre, tomamos muita porrada e é desleal, é desnecessário, não precisávamos sofrer tanto, mas é assim. Eu já me distanciei do palco tantas vezes, me reaproximei do palco tantas vezes e falando assim parece que eu tenho 40 anos mas eu tenho 28! Pensa que a primeira vez em que pisei no palco eu tinha 12.

Marcelo de Assis: Em mercados estratégicos como o norte-americano e europeu, um artista conceitual consegue ter muito mais uma amplitude artística do modelo que encontramos no Brasil?

Alice Caymmi: Com certeza, eles são muito mais evoluídos nesse sentido!

Marcelo de Assis: Por quê?

Alice Caymmi: Cara, porque eles nasceram lá! A arte conceitual nasceu no além-mar. Uma pessoa que se empenhou em trazer a arte conceitual para o Brasil no âmbito da música: Tom Zé! É o cara mais artista plástico na música que eu conheço. Quando ele começou ela já era um dos precursores da Tropicália. E hoje em dia então, hoje em dia é “oi bebê, eu gosto mais de você do que de mim” e é genial essa música. Mas eu acho que ainda chegaremos lá!

Marcelo de Assis: Há esperança!

Alice Caymmi: Há esperança! Há esperança!

É jornalista e pesquisador musical. Cobre shows nacionais e internacionais e já entrevistou bastante gente interessante do Brasil e do mundo. Foi vencedor do Prêmio TopBlog Brasil em 2010 na categoria "Música"e foi membro do Grammy Latino.

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Entrevista com Rodrigo Ratto da Ditto Music: “Transparência e simplicidade funcionam no mercado”

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Entrevista com Rodrigo Ratto da Ditto Music: "Transparência e simplicidade funcionam no mercado"
Divulgação | Ditto Music

Rodrigo Ratto é o homem a frente do escritório da Ditto Music no Brasil, uma das empresas mais inovadoras do mercado musical e que tem em seu portfólio, pilares globais da indústria como Ed Sheeran, Sam Smith, Stormzy e Chance The Rapper. Com vasta experiência no mercado fonográfico brasileiro, Ratto possui uma trajetória de sucesso na área comercial, principalmente pelo seu trabalho na Universal Music, onde foi diretor de vendas da major.

Nesta entrevista exclusiva ao TMJ, Rodrigo Ratto fala sobre seu trabalho na Ditto e os rumos que os artistas independentes devem seguir para alcançar o tão almejado sucesso e, também, sobre sua atual visão do mercado fonográfico, deixando a dica que, para que os objetivos na indústria sejam alcançados, é necessário “o foco no atendimento e o desenvolvimento de uma equipe que fala a linguagem do mercado”.

Confira a entrevista:

Foto: Divulgação | Ditto Music

Foto: Divulgação | Ditto Music

Marcelo de Assis: Como foi o ano de 2019 para a Ditto?

Rodrigo Ratto: O ano passado foi muito bom. Completamos agora em abril o nosso terceiro ano de operação no Brasil. A Ditto hoje está presente em vinte países, com vinte e três escritórios, tendo como base os escritórios de Londres e Liverpool. Aqui no Brasil temos uma equipe completa e no ano passado tivemos uma das melhores performances em número de streamings e a mais alta taxa de sucesso de participação em playlists editoriais, comparado as outras operações.

Marcelo de Assis: Mas para a sustentabilidade da empresa foi positivo …

Rodrigo Ratto: Sim foi positivo e nós temos uma coisa curiosa: o Brasil é o único país de língua portuguesa em toda a operação e seguimos praticamente sozinhos. Temos uma presença latina em mais de 10 países, com escritórios na Espanha, México, Colômbia, Argentina, Chile, Peru entre outros que se ajudam mutuamente, além dos artistas Anglo que podem ser distribuídos em diversos países como EUA, Inglaterra, Canadá, África do Sul, Europa e Austrália, por isso foi muito bacana saber desse resultado, ficamos muito felizes. A nossa taxa de sucesso em termos de entrada em playlists editoriais, foi a maior comparada a todos os escritórios da Ditto no mundo. Também considero que o nosso atendimento é um diferencial, sendo mais humanizado. A forma como atendemos os artistas e selos, como fazemos o planejamento e estratégia de lançamentos, o envolvimento de toda a equipe no projeto. Sempre atendemos todos os clientes, o primeiro contato, normalmente é realizado por mim e depois passa por cada membro da equipe.

Marcelo de Assis: Ainda mais com um produto digital onde tudo hoje é na base do “self”, o que não há nada de mal nisso, mas com toda essa universalização digital, ainda se observa a necessidade de um trabalho humanizado. Com base nos números que você me apresentou, vocês tiveram um ano que pode se considerar de um crescimento exponencial bem interessante, mas o que realmente impulsionou todo esse crescimento? E quais são os artistas que colaboraram para este impulsionamento da empresa?

Rodrigo Ratto: Quando a Ditto abriu no Brasil, eu estava sozinho, tinha apenas dois artistas para distribuir. Havia trabalhado em uma multinacional durante 12 anos e tive que começar isso do zero, e aos poucos, fomos penetrando no segmento indie rock com artistas que não estavam sendo bem atendidos pelas outras distribuidoras e que passaram a migrar para a Ditto, com isso, começou a funcionar o “boca-a-boca”, foi quando começamos a assinar mais artistas e surgindo cada vez mais oportunidades, e foi neste segundo estágio que começamos a entrar em outros segmentos com o de MPB, Trap, EDM, Samba e que surgiu uma abertura para artistas da nova safra de MPB como Clara Valverde, Mariana Nolasco, Scatolove, Clarice Falcão, Lourena, Amanda Magalhães, Bemti e Ana Cañasque está desde o começo com a gente. Estruturamos melhor a empresa e começou a surgir uma maior procura pelos nossos serviços. Participamos da SIM, de algumas conferências e convenções do mercado e em dezembro do ano passado fizemos a nossa própria convenção, a DITTO X onde criamos painéis bem interessantes com empresários e artistas, além de showcases. Então, tudo isso foi o resultado de um trabalho com foco no atendimento, desenvolvimento de uma equipe que fala a linguagem do mercado e as coisas foram acontecendo. Estamos tendo um número maior de lançamentos nessas últimas semanas, principalmente. Dentro de toda essa situação que estamos passando, os artistas estão produzindo mais. Não houve queda nos lançamentos, aliás, houve aumento.

Marcelo de Assis: Talvez em decorrência da quarentena …

Rodrigo Ratto: Eu acho que é isso também. Esse é um ponto importante, porém difícil de lidar. O setor de show business está muito complicado, todos os artistas estão sofrendo com isso. Então, essa linha de negócios, zerou. Sem receita o artista tem que produzir. As majors seguraram os principais lançamentos e isso abriu mais espaço para os independentes. As plataformas estão precisando de conteúdo novo e o que falo para os artistas é que produzam e distribuam mais produtos. Com esse problema da pandemia, as pessoas ficaram recolhidas em casa, então, é natural que algumas linhas de receitas referentes ao streaming caíram, como aquele momento em que você estava no trânsito entre o deslocamento casa-trabalho-trabalho-casa em que você consumia música, não está mais acontecendo. Quando você ia na academia e levava seu smartphone para ouvir música, também não rola mais, além disso o seu espaço também teve de ser dividido com os outros membros da família, que querem assistir ao Netflix, a Amazon, a Disney+, etc. Enfim, apesar de uma pequena queda no consumo musical de streaming, existe uma demanda muito grande para novidades. Você pode consumir catálogos ou criar playlists, mas você quer ter lançamentos. Tivemos poucos casos de artistas que adiaram lançamentos por causa do momento, mas sempre incentivamos que os lançamentos aconteçam agora, aproveitar o momento de consumo, porque essa pandemia não tem previsão de término.

Entrevista com Rodrigo Ratto da Ditto Music: "Transparência e simplicidade funcionam no mercado"

Foto: Divulgação | Ditto Music

Marcelo de Assis: Você trabalhou em uma grande gravadora durante muito tempo e conheceu bem todo aquele ecossistema que elas tem de lançamentos, promoções de carreira e de marketing. Como foi implementar essa experiência ao abrir uma filial da Ditto, que nasceu para um mercado completamente digital?

Rodrigo Ratto: Essa é uma pergunta legal de responder. Completei recentemente 25 anos no mercado de música, comecei no varejo, trabalhei na Saraiva como comprador, depois trabalhei no WalMart como diretor de entretenimento e depois fui para a indústria quando fiquei 12 anos na Universal Music, sendo gerente regional, diretor, vice-presidente comercial e participei de muitos acontecimentos, como a mudança entre o físico e o digital, participei dessa virada, diminuindo a produção física drasticamente. Saímos das produções nas fábricas de Manaus, migramos para São Paulo enquanto que surgiu o iTunes, depois vieram os streamings com o Rdioo primeiro -, depois o Spotify e a tendência que era 80% físico e 20% digital, se inverteu completamente. Toda essa experiência foi muito rica e marcante e depois me tornar um distribuidor digital independente, foi um grande desafio. Não digo que no começo foi fácil, mas hoje eu sinto muito orgulho do que foi feito. Foi interessante começar esta nova etapa, mas ao mesmo tempo, tive que me reinventar …

Marcelo de Assis: Foi uma reengenharia …

Rodrigo Ratto: Foi uma reengenharia, uma reinvenção e o tempo foi passando. Os relacionamentos que criei me ajudaram muito e foi um dos motivos de ter assumido essa posição, do pessoal da Ditto ter me procurado. Na época das majors, não tínhamos noção do tamanho do mercado independente no Brasil, você vivia num mundo fechado e não tinha a mínima ideia qual era o tamanho e como funcionava. Quando entrei nele, eu me assustei. Fiquei totalmente impressionado com o universo do mercado independente, coisa que dentro das gravadoras ninguém imaginava que exista. Por outro lado, a concorrência é enorme, atualmente, o mercado local possui em torno de 10 distribuidores digitais, fora as grandes gravadoras.

 

 

“Primeira coisa é ter talento e um bom produto. Todos os dias nascem artistas e você sabe como é fácil produzir musica hoje em dia, em seu quarto, em seu home estúdio. Se ele acreditar no seu trabalho, ter perseverança e foco, as oportunidades surgem”

 

 

 

Marcelo de Assis: Isso não se deve pelo fato de que as majors sempre se interessaram no mercado mainstream e não tinham olhos para esse nicho de artistas independentes? Era assim?

Rodrigo Ratto: Era um pouco isso, além da falta de conhecimento e desinteresse. O mercado gospel, por exemplo, era um mercado enorme, que todos tentavam entrar, mas era extremamente fechado e você tinha que ser do meio, tinha que ter a linguagem. . As gravadoras tentaram algumas vezes entrar, mas não com tanto sucesso, inclusive tiveram que montar um departamento exclusivo para o segmento. Quando entrei no mercado independente , eu percebi que é um mercado totalmente competitivo e que cada vez agrega mais artistas das majors…Por que? O que a gravadora dá para o artista hoje? A chancela de uma marca e a mesma receita de bolo para todos ou ainda ter direito a um percentual de todas as receitas ativas e passivas do artista e não ter comprometimento de quanto investirá no marketing e desenvolvimento dele. Então, o que vem acontecendo nos últimos anos é a saída dos artistas das gravadoras para as distribuidoras independentes, o que acaba sendo interessante e lucrativo para eles, recebendo 70% a 80% dos seus royalties de vendas ao invés do formato tradicional das gravadoras, que paga menos e não garante o quanto investirá em sua carreira. Então, a mudança veio para os artistas também.

Marcelo de Assis: No dia-a-dia, em análise de mercado, uma distribuidora independente visualiza essa “guerra” de mercado com as gravadoras ou não se tem esse tipo de preocupação?

Rodrigo Ratto: Há sim uma competição. Nós que estamos ainda em início de operação, distribuímos alguns artistas que foram de majors, mas que estão saindo delas por conta própria, porque não estão mais satisfeitos com o trabalho ou não são mais interessantes para as gravadoras. Já aconteceu de alguns artistas, que encerraram seus contratos com gravadoras virem nos procurar para cuidar de sua distribuição digital É só ver os charts de streamings, onde normalmente 40% das posições, ou em alguns casos até mais, vem sendo ocupados por artistas independentes.

Marcelo de Assis: Então, isso nos leva a compreensão de que as gravadoras estão enxergando uma mudança de trabalho para se equiparar ao trabalho das empresa independentes?

Rodrigo Ratto: Claro que sim, eles estão se baseando nisso. Eles estão ficando mais enxutos, não precisam mais de toda aquela estrutura e ao mesmo tempo tem que ser mais competitivos e atraentes para os artistas melhorando, claro, os percentuais de ganho. Estão abrindo mão da divisão de royalties dependendo do comprometimento ou não de marketing.

Marcelo de Assis: A apresentação do site da Ditto conta com imagens de artistas famosos. Por ser uma empresa que trabalha com produtos independentes, por que outros artistas que não são tão famosos, não aparecem no rosto do site?

Rodrigo Ratto: Normalmente tentamos dar essa oportunidade para todos. Hoje acredito que tenhamos por volta de 2.000 artistas utilizando a nossa plataforma de autoatendimento e pode ser que dali saia um grande artista que possa ter a sua imagem destacada no site. O Ed Sheeran e o Sam Smith, por exemplo, tiveram os seus primeiros trabalhos distribuídos pela Ditto, o Chance The Rapper também distribui com a gente. O site é muito importante para os artistas em começo de carreira que procuram uma oportunidade de distribuição e o serviço de autoatendimento é feito para isso, tentamos deixa-lo da maneira mais didática e intuitiva possível.

Marcelo de Assis: Ratto, o que é ter um artista independente e transformá-lo em sucesso? Como é que ele chega lá?

Rodrigo Ratto: Primeira coisa é ter talento e um bom produto. Todos os dias nascem artistas e você sabe como é fácil produzir musica hoje em dia, em seu quarto, em seu home estúdio. Se ele acreditar no seu trabalho, ter perseverança e foco, as oportunidades surgem. Claro que tem que ter um investimento em sua carreira, tem que estar muito bem atualizado, inserido nas redes sociais e talvez um selo possa dar um suporte maior em sua carreira. Se estiver sozinho e for 100% independente é preciso contar com os amigos e parceiros para ajudar neste início de carreira.

Marcelo de Assis: Como é o seu relacionamento com o Lee Parson e como ele enxerga o crescimento da Ditto ao longo dos anos?

Rodrigo Ratto: O Lee e o seu irmão eram músicos e assinaram com uma grande gravadora, mas o trabalho deles ficou parado por três anos e nunca foram lançados, ou seja, ficaram na famosa “geladeira”. Frustrados com a situação criaram uma distribuidora independente. Mudaram de Birmingham para Liverpool e aí tiveram o primeiro sucesso de um artista independente que alcançou o TOP 40 no Reino Unido, coisa inédita até aquele momento e que rendeu até um registro no livro de recordes do Guinness pelo feito. O Lee tem uma visão diferente: ele acha que o mercado de distribuição nos dias de hoje é praticamente um mercado de commodities e tem criado muitas oportunidades e frentes de trabalho para a Ditto, como o sistema de blockchain, as lojas Ditto Coffee, o gerenciamento de artistas e a abertura de novos escritórios ao redor do mundo . Ele é um cara que cria muitas coisas, não para nunca. Ele ama o nosso país, já esteve aqui várias vezes e nos dá uma liberdade de trabalho tremenda.

Marcelo de Assis: É uma liberdade corporativa que mais parece uma liberdade artística …

Rodrigo Ratto: Sim, total. Dependendo do momento atuamos com A&R também, quando temos interesse em assinar com um artista ou selo, apresento e divido com a equipe, fazemos a parte de curadoria, estratégia e cronograma do lançamento juntos. Quando você acerta uma vez e outra, o artista confia e fala bem de você. Então isso é bem legal, e assim que o mercado independente tem que ser, totalmente transparente e ter é uma linguagem direta: você não precisa passar pelo presidente, que vai para o A&R, que vai para o marketing e depois para as vendas…. Essa transparência e simplicidade é o que tem funcionado no mercado.

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Entrevista com Sérgio Affonso, presidente da Warner: “O digital democratizou a música”

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Entrevista com Sérgio Affonso, presidente da Warner: "O digital democratizou a música"
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Ele está a frente da empresa que conta com um cast que está na vanguarda do pop atual como Anitta, Ludmilla e IZA. Sérgio Affonso, presidente da Warner Music Brasil iniciou sua bem sucedida carreira na indústria musical ainda nos anos 1980 na saudosa EMI-Odeon. Também passou rapidamente pela gravadora Copacabana, entrando para a equipe da WEA na mesma década, onde foi diretor de marketing internacional.

Com excelentes resultados na companhia pavimentou o caminho para que Affonso fosse nomeado presidente da filial mexicana em 2001, por onde permaneceu durante um período de seis anos. Já em 2006, ele retorna ao Brasil para assumir a presidência da Warner Music, onde segue no posto até hoje.

Com grande experiência no mercado musical dos anos 1980 e no novo mercado, onde as gravadoras trabalham em sistema 360º e proficiente na era digital da música, Sergio Affonso concedeu uma entrevista exclusiva ao TMJ para falar sobre a fase atual da Warner, os artistas que formam seu quadro e sobre os valores do funk e do pop brasileiro, deixando claro que não há uma preferência musical predileta: “Eu quero trabalhar com boa música”.

Confira:

Entrevista com Sérgio Affonso, presidente da Warner: "O digital democratizou a música"

Marcelo de Assis: Como foi o ano de 2019 para a Warner Music Brasil?

Sérgio Affonso: O ano de 2019 foi muito bom para a gente. Conseguimos alguns resultados até de certa forma imprevisíveis, para uma companhia como a Warner ter a música sertaneja mais tocada no Brasil quando eu tenho apenas três artistas sertanejos na companhia: Paula Mattos, Day & Lara e João Gustavo & Murilo. Então, foi um ano muito bom para a gente, terminamos o ano muito bem em posicionamento de charts e os artistas novos como foi o caso da Giulia Be, do PK, da consolidação da carreira da Pocah, isso sem falar de Anitta, IZA, Ludmilla, Ferrugem que são os grandes nomes, mas foi um ano muito bom para nós.

Marcelo de Assis: Eu vejo que a Warner, já a alguns anos, aposta bastante na música pop. Isso é notável no mercado. Será esse o caminho a ser seguido pela companhia nos próximos anos ou haverá a possibilidade de se abrir um espaço maior para outros gêneros?

Sérgio Affonso: Olha Marcelo, nunca houve da minha parte, uma concentração em apenas um gênero musical. Na verdade, existe um dado que é importante se destacar, que quando começamos a trabalhar com o funk, acredito que fomos a gravadora das majors que mais investiu no gênero, o funk não era considerado pop, pelo contrário, era meio maldito até. E aí o funk foi crescendo tanto que virou pop. Eu não tenho uma preferência por um segmento musical. Houve essa coincidência, mas sou uma companhia que tenho outros gêneros musicais como o Papatinho, Miranda, o Suel que é um sambista, o Pedro Sampaio que é um DJ do funk, do pop, estou lançado duas artistas novas agora que são uma preciosidade, dentro de um segmento pop, uma mais pop no sentido da palavra, a outra mais sofisticada, mais adulta que é a Samantha Machado e Elana Dara, que é uma artista incrível. Então eu tenho todos os segmentos dentro da companhia, não tenho nenhuma definição do tipo “só quero trabalhar com esse segmento”. Para mim, eu quero trabalhar com boa música. As vezes, nem sempre é possível, colocamos algumas coisas no mercado que muita gente não curte, mas são expressões autênticas de quem realiza seu trabalho. Mas eu quero trabalhar com música e não tenho um segmento direcionado.

 

 

Eu vejo isso como muito positivo isso, nada que atrapalhe a música e nada que impeça que o funk continue crescendo – Sérgio Affonso, sobre o atual funk brasileiro.

 

 

 

Marcelo de Assis: a Anitta se consolidou no mercado brasileiro e está muito bem no mercado internacional. Qual foi a fórmula para esse trabalho artístico ter uma ascensão, do artista que era do funk e migrou para o pop? Em outras palavras, em que meios a gravadora consegue colaborar para que o artista tenha essa ascensão?

Sérgio Affonso: Ah essa pergunta é complicada! Primeiro de tudo, o que sempre digo, no caso da Anitta, pela obstinação, o foco que ela tem, é um caso que deverá ser estudado, porque, desde a primeira reunião que tive com ela, ela falou tudo o que ela queria e tudo o que ela queria, eu diria que 99% está acontecendo. Uma artista absolutamente focada, trabalha como poucas pessoas eu conheci na vida, então ela tem foco, obstinação, muita força de trabalho e inteligência. A gravadora entrou apoiando, no que era possível, tudo o que a Anitta pleiteava com a gente. Obviamente, nem tudo é possível mas sempre apoiamos ela e sempre tentamos dar o retorno a qual nos propormos: de alavancar a carreira do artista, de ajudar a fazer sucesso, mostrar a música do artista para um número maior de pessoas. E foi o que fizemos desde o começo, todo o suporte financeiro, de equipe, e os resultados têm acontecido. A Anitta realmente merece. A carreira dela está realmente deslanchando lá fora, as coisas estão acontecendo e estamos muito felizes. Agora, nós temos outros artistas que estão em uma performance que temos que reconhecer que são espetaculares como a IZA, o ano passado foi muito da Ludmilla. Não é fácil: diretor de marketing, técnico de futebol e médico, já dizia minha vó, todo mundo quer ser, todo mundo quer saber. Então muitas vezes as ideias se conflitam, há divergências, mas temos conseguido, graças a Deus, ter uma compreensão dos nossos artistas e da equipe com a qual trabalho, tocar para frente e ver os resultados que estamos alcançando.

Entrevista com Sérgio Affonso, presidente da Warner: "O digital democratizou a música"

Marcelo de Assis: O mercado atual não dá para comparar com as décadas de 1980 e 1990 porque mudou muita coisa. O que se percebe hoje é que esses artistas novos que têm uma potencialidade artística muito grande, parece que encontram um caminho mais rápido de se criar uma conexão com artistas estrangeiros. A Ludmilla fez isso, a Anitta também fez isso, a Pocah fez turnê internacional e há muitos anos, esse intercâmbio não era algo tão rápido. Como você analisa essas mudanças?

Sérgio Affonso: Eu participei disso tudo há muitas décadas e realmente a dificuldade era enorme, porque falamos um idioma que parece meio “exótico” e que nem sempre os artistas internacionais conseguem cantar facilmente e não haviam as ferramentas que existem hoje. A ferramenta digital, a internet, os serviços de streaming universalizaram a música. Hoje, uma música tem uma chance maior de chegar lá fora muito mais rápido do que antigamente. Então eu acho que a internet e os serviços digitais democratizaram essa possibilidade. Pode haver um cara, nesse momento, lá no Curdistão, ouvindo uma música da Anitta, da Ludmilla ou do Ferrugem. Eu por exemplo adoro música estranha. Se você olhar minha playlist, só tenho música árabe, música do Marrocos, música indiana, porque eu gosto de descobrir o que está rolando. Então, eu acho que isso deu uma abertura muito grande para música. Mas tem outra coisa: depois da Bossa Nova, nós colocamos uma outra música altamente dançante e contagiante, que é o funk. Muita gente no Brasil, execra, fala mal, tem muita coisa ruim mesmo. Tem coisas que doem no coração, mas é uma música para dançar, não é uma música para filosofar. E isso ajuda muito porque, o público em geral, que consome música hoje no mundo inteiro, é um público muito jovem. Então está interessado em se divertir e eu acho que tudo isso ajudou bastante na abertura para esses artistas. Esses artistas da nova geração, a IZA, Ludmilla e Anitta já vivenciaram isso que estou falando. Eles já nasceram no meio dessa modificação do mercado, dessa abertura digital. Um dos artistas que eu amava muito, com quem trabalhei, o Gonzaguinha (1945-1991), por exemplo, ele nunca teve discussão comigo sobre carreira internacional. Porque era quase impossível. Acontecia uma turnê aqui e ali e era tudo. E hoje não, a Ludmilla, que tem 24, já chegou nesse mercado. Pedro Sampaio, estourou esse problema do coronavírus, no dia seguinte ele já tinha uma música ensinando a lavar as mãos. Eles estão nesse pique que é muito veloz, muito rápido, não dá para acompanhar não.

Marcelo de Assis: Muitas pessoas me questionam o funk a partir de uma herança cultural. Bem sabemos, que o funk, inicialmente, começou nos anos 1960 nos EUA. E certa vez, entrevistei o Caetano Veloso que explicou que essa batida do funk daqui era derivada de um ritmo de Miami, chamado Miami Beat Sound. Apresentar o funk tal qual como ele é hoje, um produto pop, não cria um distanciamento da referência histórica que é o funk norte-americano, de sua construção melódica?

Sérgio Affonso: O funk carioca, de onde tudo começou, tem a ver com esse Miami Beat Sound e foi evoluindo. No meu entendimento, o funk é uma música legítima nossa. Eu trabalhei com muito baile funk no Bangu, no Magnata, enfim, em vários clubes aqui no Rio de Janeiro. Naquela época, eu fazia promoção com o Furacão 2000, o DJ Marlboro, nós víamos que naquela época as pessoas, da forma que começa para mim, como eu vivi, eu presenciei 5 mil pessoas no baile funk, em um sábado à noite, sem ar-condicionado, sem nada, 60 graus naquele lugar, pessoas dançando e fazendo as suas versões com letras em cima de uma música de sucesso internacional. Eles inventavam a letra. A música Bette Davis Eyes da Kim Carnes que ela falava “she’ll unease you” e como as pessoas não sabiam dizer isso, falavam “Seu Anísio” e acabava virando o “Melô do Seu Anisio”. Começou com essa brincadeira, foram aparecendo os MC’s fazendo música nova e foi se transformando, também no funk de São Paulo, Nordeste e outras derivações. Eu vejo isso como muito positivo isso, nada que atrapalhe a música e nada que impeça que o funk continue crescendo.

 

Anitta é um caso que deverá ser estudado, porque, desde a primeira reunião que tive com ela, ela falou tudo o que ela queria e eu diria que 99% está acontecendo.

 

 

 

Marcelo de Assis: Eu acompanho muitos artistas novos que não estão vinculados à uma gravadora, é o sonho de muitos artistas apesar de toda essa democratização que existe na internet, como companhias independentes – essas empresas sempre existiram. Qual o caminho para esses novos artistas, que por vezes muito talentosos, porém anônimos, conseguirem um lugar ao Sol? Mais diretamente: como a Warner enxergaria esses artistas hoje e conseguiria capitaneá-los para a empresa?

Sérgio Affonso: O que o artista tem que fazer, primeiro de tudo, com essa democratização da internet, é fazer um vídeo com o seu próprio smartphone, cantando e subir ele no YouTube ou Instagram e apresentar para as pessoas, porque acaba chegando para a gente. E outra coisa, é buscar o contato com a gravadora mesmo. Eu sou mais do que feliz em receber esse material e procuro ouvir o máximo que posso de tudo.

Marcelo de Assis: Sergio, eu vejo que as outras gravadoras lançaram lojas com seus produtos. A Warner vai entrar nesse mercado?

Sérgio Affonso: Nós temos uma operação muito pequena de material para colecionáveis, mas a gente ainda vê um grande mercado no Brasil para isso. Eu não tenho, nesse momento, nenhum plano de ter uma loja. Estou trabalhando apenas nessa parte do material colecionável, que atende pedidos de fãs.

Eu vejo isso como muito positivo isso, nada que atrapalhe a música e nada que impeça que o funk continue crescendo.

Marcelo de Assis: Nós do TMJ sempre fazemos matérias de produtos que, por vezes, não são comercializados no Brasil e são distribuídos internacionalmente. E quando os artistas internacionais lançam um álbum com vários formatos, não chega por aqui. Não somos um mercado para esses produtos?

Sérgio Affonso: Marcelo, o que você está falando é parcialmente verdade. Nós lançamos digitalmente tudo o que a companhia lança. Hoje, quando sobe uma música nas plataformas, geralmente ele está liberado para o mundo inteiro, a não ser que haja algumas restrições contratuais que determinados artistas têm. Por exemplo, existe uma artista “A” onde tem uma parte do mundo que ela não pode ser incluída. Fora isso, 80% do nosso catálogo está disponível integralmente. Agora, para o formato físico, o mercado praticamente desapareceu e quem define o que será lançado neste formato aqui é a empresa com a qual nós temos um contrato de distribuição, no caso a RIMO, e eles que definem porque o risco de estoque são deles. Agora todos os artistas do catálogo antigo, a própria RIMO importou cerca de 10 mil discos de vinil de artistas de catálogo. O mercado físico diminuiu a níveis muito baixos, mas o digital está todo disponível. Não temos porque não lançá-los. A não ser aqueles que não existem contratos e, mesmo assim, nós estamos entrando em contato com a família para lançá-los.

Marcelo de Assis: Como que a Warner Music está enfrentando essa quarentena do coronavírus?

Sérgio Affonso: Eu trabalho mais de 30 anos na Warner e digo que estou encantado de ver como a companhia está preocupada com isso. Talvez tenhamos sido uma das primeiras gravadoras a entrar em home-office e temos reuniões atrás de reuniões e ninguém falou de faturamento comigo até agora. O que se fala é se as pessoas estão seguras, se estamos conseguindo tocar o barco, como estão os nossos artistas e empregados. A gravadora está jogando muito sério nesse ponto e vai levar tempo, na minha opinião, para superarmos tudo o que está acontecendo. Na minha opinião, tudo isso será superado 100% depois que aparecer uma vacina ou um tratamento eficaz.

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Entrevista com Eagle-Eye Cherry: “É um prazer encerrar esta turnê no Brasil”

O cantor e compositor sueco concedeu uma entrevista exclusiva ao The Music Journal Brazil onde fala de seu relacionamento com a irmã Neneh Cherry, de suas colaborações com artistas brasileiros e de sua alegria em retornar ao Brasil.

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Entrevista com Eagle-Eye Cherry: "É um prazer encerrar esta turnê no Brasil"
Nando Machado

O cantor Eagle-Eye Cherry esteve no Brasil pela primeira vez em 1999 quando se apresentou no extinto Free Jazz Festival e voltou diversas vezes nos anos seguintes para turnês concorridas e shows esgotados. Aqui no Brasil, construiu uma sólida base de fãs, impulsionada por sua participação em trilhas sonoras de novelas, filmes e séries como Smallville, Billy Elliot e E Sua Mãe Também, além de parcerias com artistas locais como Maria Gadú e Vanessa da Mata e o guitarrista Carlos Santana.

Entrevista com Eagle-Eye Cherry: "É um prazer encerrar esta turnê no Brasil"

Filho do prestigiado trompetista Don Cherry e da pintora Monika Moki, a música está na vida de Eagle-Eye desde o começo. Com sua irmã Neneh Cherry, hoje também cantora e musicista, viajou o mundo em turnês com o pai. Aos 12 anos, mudou-se para Nova York para estudar cinema e começou a trabalhar como ator, além de baterista para diversos grupos da cena local.

Pouco depois da morte do pai em 1995, retorna a Estocolmo para começar o compor o que seria o seu primeiro grande sucesso comercial, o álbum de estreia Desireless, que projetou o músico para uma carreira internacional, vendeu mais de 4 milhões de cópias e foi disco de platina nos Estados Unidos com sua roupagem pop aliada a elementos de folk e blues.

De lá para cá, foram mais cinco álbuns de estúdio e um disco ao vivo, gravado na icônica casa de shows Circo Voador no Rio de Janeiro, onde também se apresenta nesta nova turnê. Streets of You, seu último trabalho inédito, foi lançado em 2018.

Eagle-Eye Cherry, que chegou a gravar um novo clipe em São Paulo no último domingo (20) e se apresenta na capital paulistana no Cine Joia no dia 23 de outubro e no dia 24 no Circo Voador no Rio, concedeu uma entrevista exclusiva ao The Music Journal Brazil onde fala de seu relacionamento com a irmã Neneh Cherry, de suas colaborações com artistas brasileiros e de sua alegria em retornar ao Brasil para finalizar a sua atual turnê, onde ele diz que “é um prazer muito grande encerrar esse ciclo em lugar que eu gosto tanto”.

Confira a entrevista:

Entrevista com Eagle-Eye Cherry: "É um prazer encerrar esta turnê no Brasil"

Marcelo de Assis: Qual a sensação de retornar ao Brasil e sua expectativas para os seus shows aqui?

Eagle-Eye Cherry: Estou muito feliz em retornar ao Brasil. Estamos em turnê com este álbum há mais ou menos um ano e quando descobri que os últimos shows seriam aqui eu fiquei muito animado. Eu gosto muito do público brasileiro e é um prazer muito grande encerrar esse ciclo em lugar que eu gosto tanto.

Marcelo de Assis: Eagle, você esteve aqui pela primeira há exatos 20 anos. Ainda se recorda daquele momento quando se apresentou aqui?

Eagle-Eye Cherry: Sim, foi no Free Jazz Festival com o Roots e o Finley Quayle. Eu me lembro muito bem, porque cresci ouvindo música brasileira, então, eu sempre soube que viria ao Brasil em algum momento, só que eu acreditava que seria como turista e não como artista. Naná Vasconcelos, que era amigo do meu pai, tocaram juntos e isso se mantém com uma memória muito viva para mim.

Marcelo de Assis: Como você avalia sua carreira até hoje desde o lançamento de Desireless?

Eagle-Eye Cherry: Eu me senti um homem de sorte por ter essa carreira até hoje, porque quando eu comecei eu tive muitos sonhos e realizei muitos deles. Tive participações em programas de TV, coisas que eu não imagina que eu faria e acabei realizando, mas, acima disso, eu consegui criar uma música que resistisse à prova do tempo e eu sinto que consegui isso. É uma grande realização.

 

 

“Eu gosto muito do público brasileiro e é um prazer muito grande encerrar esse ciclo em lugar que eu gosto tanto.”

 

 

 

 

Marcelo de Assis: E você é irmão da Neneh Cherry. Como é a relação de vocês e como vocês discutem a música?

Eagle-Eye Cherry: Eu sou um grande amigo da minha irmã. É minha pessoa favorita. Eu não a vejo sempre, mas, temos uma relação ótima. Temos uma compreensão sobre o outro muito grande e quando estamos juntos, na maior parte do tempo, não falamos sobre trabalho. Cozinhamos e fazemos coisas juntos, mas eu sei que se eu precisar conversar sobre música com alguém, uma das pessoas que mais me entendem é minha irmã, então, me sinto confortável para falar com ela sobre qualquer coisa.

Marcelo de Assis: Você já trabalhou com artistas brasileiros como Maria Gadú e Vanessa da Mata. Como foi essas colaborações e o que elas agregaram em sua carreira?

Eagle-Eye Cherry: Tive uma colaboração com a Maria Gadú e quando estava pensando em fazer uma colaboração, eu descobri a voz dela que é uma coisa maravilhosa e acredito que a música foi para outro patamar e com a Vanessa da Mata, eu acabei descobrindo ela depois de uma colaboração com o Ben Harper, de quem eu sou muito fã e acredito que essas colaborações agregam muito e eu fiquei muito feliz com ambos os resultados.

Marcelo de Assis: Quem é o Eagle-Eye Cherry?

Eagle-Eye Cherry: Eu faço essa pergunta todos os dias quando eu acordo e me olho no espelho! (risos). E quando eu levo muito tempo em gravar um álbum e outro é porque eu ainda tenho dificuldade com essa parte de celebridade. Eu gosto muito de tocar, é tudo para mim, é como respirar, comer, algo vital. Mas ainda tenho essa dificuldade de estar muito exposto e as vezes faço pausas maiores na carreira. Tem esses dois Eagles: o cara que sobe no palco e outro que é uma pessoal normal, que prefere ficar longe das câmeras.

Marcelo de Assis: Música tem que ser a celebração da vida ….

Eagle-Eye Cherry: Sim! Exatamente!

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