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Entrevista com Alice Caymmi: “Estou sempre em reconstrução”

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Dona de um talento extraordinário que desde sempre habita o DNA de sua célebre família, a cantora e compositora Alice Caymmi concedeu uma entrevista exclusiva ao The Music Journal Brazil para falar sobre o seu novo trabalho, o EP Dizem Que Sou Louca que chega ao mercado com quatro versões da faixa Louca e já está disponível em todas as plataformas digitais pela Universal Music via Flecha de Prata Edições Musicais.




Neste bate-papo, Alice fala sobre a concepção de novo trabalho, de seu processo criativo por ser uma artista conceitual e os desafios que ela encontra nesta esfera.

Dona de uma criatividade ímpar, ela cria uma conexão entre a música e o audiovisual transformando em algo uníssono, realizando um trabalho diferenciado e moderno no mercado musical brasileiro que, para o bem da arte, traz em suas palavras o significado de um ciclo: “Tudo o que eu faço, é um alimento para um futuro trabalho”.

Confira:

Marcelo de Assis: Alice como foi a concepção deste novo EP “Dizem Que Sou Louca”?

Alice Caymmi: Este é um EP de versões da música e eu fiz uma versão acústica, uma versão a capella e um remix bem legal junto com João Brasil que é bem dançante e que é um grande presente para os fãs que querem dançar e tudo mais. Eu tinha planejado isso para o final do ano passado, porque é realmente um presente que estou dando para eles pelo tempo em que eu não pude trabalhar o single na época. Então, estou trabalhando bastante ele e fechando com esse matéria para que eles possam tirar o máximo de proveito possível e imaginável dessa música que eu vi que comoveu e ajudou muita gente.

Marcelo de Assis: Você criando esse tipo de extensão de seu trabalho, como você mesma disse, um presente para os fãs, isso poderia influenciar ou impulsionar os seus futuros trabalhos?

Alice Caymmi: Sempre, sempre! Tudo o que eu faço, é um alimento para um futuro trabalho. E como eu estou em reconstrução – porque toda as vezes em que estou entre um álbum e outro, temos que nos “destruir” para nos “reconstruir” – como os artistas que trabalham com conceito e com forte criação em todos os sentidos, precisam se se destruir primeiro – ainda estou tirando a última pena do corpo para poder me renovar, para que eu possa voltar e como não há um caminho apontado certo, eu não tenho como dar uma prévia para dizer onde eu vou. Não há um trabalho a ser lançado que, tem claro, tudo haver com esse e, enfim, eu continuo sendo a Alice conceituado e intérprete que todo mundo gosta.

Marcelo de Assis: De fato. E desde o começo quando comecei a acompanhar o seu trabalho, vejo que você faz algo completamente diferente no mercado musical brasileiro por ser uma artista conceitual. Você já nasceu com isso ou era algo que você projetou no futuro?

Alice Caymmi: Eu não sabia que eu ia chegar nesse nível de conceituação e concepção de cada obra que eu tivesse. Eu sabia que eu iria trabalhar com música mas não sabia que era isso. Mas o interesse pelas obras conceituais sempre existiu em mim. O fato de eu ser fã da Bjork desde criancinha já mostra isso, as coisas de arte contemporânea que eu pedia para ir quando era criança já diziam isso, as exposições, os artistas que eu gostava desde cedo… a minha relação com as artes plásticas é muito forte, a minha relação com a performance é muito forte, então, eu sempre fui, bem ou mal, um ser conceitual. E eu acho que meu avô ele tinha isso, mas não essa coisa camaleônica, porque ele viveu em uma época em que não precisava se reinventar tão rápido. E ele tem uma obra tão genial, que ele não precisou reinventar absolutamente nada porque ele criou. É como se ele tivesse criado o “feijão-com-arroz”, sabe?

Marcelo de Assis: Ser artista conceitual, naturalmente, sofre algum tipo de pressão nesse sentido, Alice? De se reinventar a todo o momento?

Alice Caymmi: Totalmente! Me sinto totalmente pressionada. Tem épocas que eu tenho vontade apenas de ficar nua em uma casa de campo, criar galinha e acabou, porque cansa! É uma coisa difícil mas é da minha personalidade isso. Quando eu falo, “Vou dar uma descansada!”, daqui a pouco eu vejo estou criando uma situação nova: ou um disco novo, ou um show novo ou um projeto.

Marcelo de Assis: Esse novo EP abre com Spiritual e essa faixa dialoga muito com seus registros audiovisuais. Muitas dessas coisas as quais você projeta tem haver com crença? Em outras palavras: qual é a sua crença?

Alice Caymmi: A minha religião, a minha vida, o meu caminho é o caminho dos Orixás. Eu nasci no Candomblé e cresci na UmbandaEntão, eu não vivo sem um apoio e sem o suporte dos Orixás e eu sou praticamente mesmo na religião. Não tem nada holístico tipo, “ah, eu acho curioso”. Não, é a vida vivida dessa forma mesmo e dedico muito do que consegui até hoje a eles. Meu avô era assim também, que é uma coisa que eu faço completamente igual ao meu avô e, sim, a vida espiritual permeia muito a minha vida artística o tempo inteiro. Até onde não há citações diretas, há citações indiretas muito fortes.

Marcelo de Assis: Em janeiro de 2018 você lançou seu terceiro álbum Alice e contou com vários nomes como Rincon Sapiência, Pablo Vittar, Cléo e Ana Carolina. Como nasceu a ideia deste álbum?

Alice Caymmi: Cara, esse álbum foi um trabalho que eu nunca demorei tanto para fazer. Levei um ano para fazer este álbum e, assim, foi um álbum feito a muitas duras penas porque eu estava em muito sofrimento, tive problemas pessoais muito fortes e ele foi feito em cima de muita, muita dificuldade. Nunca pensei que fosse passar tanta dificuldade assim …

Marcelo de Assis: Esse álbum acaba refletindo essa fase difícil? Seria um desabafo?

Alice Caymmi: Ele não é um desabafo, muito pelo contrário: ele é uma tentativa de mudança de assunto. As únicas faixas que falam realmente sobre sofrimento é Inimigos, que tem uma participação do Rincón Sapiência, e Spiritual. Toda a parte mais pop foi uma tentativa de desvirtuar um pouco, porque eu sempre cantei o meu sofrimento com muita facilidade, mas eu nunca sofri tanto. Então, eu não consegui. Agora que estou me refazendo é que eu tenho certeza que vou conseguir vir com força total de novo com mais facilidade.

Marcelo de Assis: Então esse álbum foi uma experiência para que as dificuldades que você enfrentou, viessem a te conduzir a você aprender a lidar com essas emoções e desaguarem em suas composições e hoje você teria mais “equipamentos”, por assim dizer, para poder implementar essas emoções dentro de uma composição?

Alice Caymmi: Isso, exatamente! Exatamente! Estão mais “armadas” e mais fortes!

 

 

“A minha relação com as artes plásticas é muito forte, a minha relação com a performance é muito forte, então, eu sempre fui, bem ou mal, um ser conceitual”

 

 

 

Marcelo de Assis: O que teremos da Alice Caymmi para 2019?

Alice Caymmi: Estou preparando coisas para o verão. Darei uma repaginada no meu show que eu venho fazendo, do disco Alice, vou dar uma mexida nele porque, enfim, acho que temos que ir mexendo nos repertórios e ir renovando ele e eu não consigo cantar a mesma coisa tanto tempo, sabe? É um show mais alegre, é um show de verão, combina com ele. E além disso estou em um momento de honrar a memória do meu avô muito forte, então é muito capaz que eu participe de outros projetos ligados à memória dele com mais frequência neste ano.

Marcelo de Assis: Alice, você já enfrentou uma grande barreira por ser uma artista conceitual? Como que é isso no Brasil?

Alice Caymmi: É só você analisar minha trajetória! Eu fiz um disco que será moderno por mais uns dez anos no mínimo que é o Rainha dos Raios e ele hypou. Mas aí ele ficou no hype e não é isso aí! Ele é um disco de quebra de paradigmas e tudo mais. O Alice, por exemplo, poderia ter sido muito mais compreendido e entendido e ele não foi. As pessoas não entenderam. O pessoal acolheu, o meu público aumentou, os meus números aumentaram, porém não sinto que as pessoas tenham entendido. E continuo sentindo que as pessoas não entendem tudo. Aí eu fico: “Vou parar de entregar tudo isso?”, sabe? As vezes fico pensando assim, se eu “vou parar de entregar tudo isso porque ninguém se importa” ou “eu vou entregar tudo isso, porque eu vivo assim e é assim que eu faço as minhas coisas”. Eu nunca fiz arte conceitual por causa de público, até porque ninguém decide ser conceitual por causa de público. Teoricamente na cabeça dos caretas, conceitual não atinge o público. Mas atinge sim! Não sei se é falta de contato com esse tipo de arte, porque existe um mercado alternativo né? E esse mercado alternativo é muito engraçado, porque a pessoa vai e dá um hype no eixo Rio-São Paulo. Aí esse hype do eixo Rio-São Paulo dá uma subida para o Nordeste. Aí algumas pessoas ficam sabendo, mas ainda não é a compreensão do seu trabalho, entende? Acho que o trabalho conceitual não “cola” muito mas eu faço do mesmo jeito e não me importo mais.

Marcelo de Assis: Você é muito fã da islandesa Bjork …

Alice Caymmi: É uma que ninguem nunca entendeu e continua não entendendo!

Marcelo de Assis: O mundo não entendeu esses artistas conceituais ainda?

Alice Caymmi: Não, não entendeu mas eu posso falar da Bjork assim: ela tem “zero” energia de incompreendida, sacou? Ela está realmente, efetivamente pouco se fodendo! E ela tem o público dela, faz o negócio dela do mesmo jeito e, enfim, e é uma artista internacional maravilhosa, bilionária: ganhou uma ilha da Islândia. É como um presente pelo o que ela fez pelo país. Ela faz exatamente o que ela quer e a música dentro da cabeça dela é aquilo que vai continuar sendo e acabou. Óbvio que ela tem o planejamento para os fãs dela, óbvio que ela tem presentes que quer dar, óbvio que ela sabe que determinadas canções vão tocar mais o público ou não. Tanto que ultimamente ela tem feito disco atrás de disco para tentar curar um término de casamento, que foi mortal para ela, e ela não para de fazer os discos. Ela interrompe uma turnê no meio e fala “não consigo mais cantar esse disco!”. Faz outro! Ela não segue leis de mercado malucas. Ela é imprevisível. Claro que eu não quero ser uma pessoa completamente imprevisível, mas ao mesmo tempo eu me recuso, cara, eu me recuso na minha vida a ir em reunião de gravadora pra ela me dizer qual é o próximo passo. Isso eu tenho pavor!

Marcelo de Assis: No começo de carreira você chegou a se apresentar no Canecão …

Alice Caymmi: Isso. Há 14 anos!

Marcelo de Assis: A Alice Caymmi daquele momento para hoje: o quanto ela mudou?

Alice Caymmi: Cara, dali … é engraçado porque estou tentando voltar pra lá … A gente sempre tenta retornar ao inicio, mas nunca seremos criança de novo. Aquele foi o dia mais feliz da minha vida!

Marcelo de Assis: O que significou tanto?

Alice Caymmi: Eu descobri que eu amava aquilo! E eu descobri que estava sozinha, que eu poderia fazer o que quisesse! Não tinha meu pai, minha mãe, não tinha ninguém! Eu estava na coxia e eu ia entrar em cena. Aquele lugar era só meu, então, percebendo que aquilo era pra mim, nossa, a minha vida funcionou mais fácil para mim em diante. E eu acho que eu tenho que recuperar isso. E depois fui fechando, fechando, fechando como todo adulto. E fui entendendo e não entendendo, reconhecendo e não reconhecendo aquele espaço como meu. Porque a gente sofre, tomamos muita porrada e é desleal, é desnecessário, não precisávamos sofrer tanto, mas é assim. Eu já me distanciei do palco tantas vezes, me reaproximei do palco tantas vezes e falando assim parece que eu tenho 40 anos mas eu tenho 28! Pensa que a primeira vez em que pisei no palco eu tinha 12.

Marcelo de Assis: Em mercados estratégicos como o norte-americano e europeu, um artista conceitual consegue ter muito mais uma amplitude artística do modelo que encontramos no Brasil?

Alice Caymmi: Com certeza, eles são muito mais evoluídos nesse sentido!

Marcelo de Assis: Por quê?

Alice Caymmi: Cara, porque eles nasceram lá! A arte conceitual nasceu no além-mar. Uma pessoa que se empenhou em trazer a arte conceitual para o Brasil no âmbito da música: Tom Zé! É o cara mais artista plástico na música que eu conheço. Quando ele começou ela já era um dos precursores da Tropicália. E hoje em dia então, hoje em dia é “oi bebê, eu gosto mais de você do que de mim” e é genial essa música. Mas eu acho que ainda chegaremos lá!

Marcelo de Assis: Há esperança!

Alice Caymmi: Há esperança! Há esperança!

É jornalista e pesquisador musical. Cobre shows nacionais e internacionais e já entrevistou bastante gente interessante do Brasil e do mundo. Foi vencedor do Prêmio TopBlog Brasil em 2010 na categoria "Música"e foi membro do Grammy Latino.