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Entrevista com o trio Melim: "Os nossos fãs são um presente para nós" Entrevista com o trio Melim: "Os nossos fãs são um presente para nós"

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Entrevista com o trio Melim: “Os nossos fãs são um presente para nós”

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O trio Melim, formado pelos músicos Rodrigo, Diogo e Gabriela concederam uma entrevista exclusiva ao The Music Journal Brazil para falar sobre o lançamento de seu novo EP que celebra o novo contrato do grupo com a Universal Music.




No bate papo realizado na sede da gravadora em São Paulo, eles falaram sobre o inicio de suas carreiras, os primeiros momentos de cada um com a música e de como surgem as composições e das influências musicais em suas carreiras.

Confira:

Marcelo de Assis: Como surgiu a ideia de vocês formarem um trio?

Gabriela: Nós não começamos juntos, começamos separados. Eu comecei a minha carreira solo com 15 anos no samba de raiz e tive oportunidade de gravar com João Donato e para mim na época foi incrível. E os meninos tocavam nos barzinhos. Enquanto isso viajei bastante. Depois que começamos a crescer, amadurecer musicalmente, nos aproximamos muito em em estilos parecidos. E nossas composições estavam servindo tanto pra eles quanto para mim… “Vocês ficam com essas músicas e eu com essas”…

Diogo: Aí migramos um pouco para o pop …

Gabriela: … e eles que ja eram pop, ficaram mais do que nunca!

Diogo: Antes disso, a música surgiu em casa da forma mais natural! Meus pais, por mais que não sejam músicos profissionais, eles são amantes da música. Meu pai canta no karaokê, tem uma voz grave, bonita. Minha mãe tem uma voz rouca, bonita também. Meu pai sempre trabalhou com artistas, minha mãe vem de uma família de músicos de Belo Horizonte, então lá em casa sempre foi um ambiente muito musical e sempre gostamos muito disso. Na primeira oportunidade que tivemos de tocar, pedíamos: “Pai, quero um violão”. E com o passar do tempo, meu pai acabou conseguindo comprar alguma coisa …

Marcelo de Assis: E com quantos anos aconteceu isso?

Diogo: Cara, acho que o Rodrigo pegou o primeiro teclado, que foi o primeiro instrumento musical que tivemos, com 8 anos …

Gabriela: Rodrigo tirava tipo Mozart, Beethoven de ouvido. Sempre gostamos de música assim e ele sempre teve facilidade de aprender.

Diogo: E fomos estudar! Um entrou para estudar canto, o outro foi estudar teclado, bateria e o outro violão. Aí eu e o Rodrigo, quando estávamos na escola, encontramos uma banda para tocar rock, pop, coisas que tocavam na época e sempre tínhamos o mesmo círculo de amigos e montamos uma banda com alguns deles.

Gabriela: Nosso pai sempre nos incentivou muito!

Marcelo de Assis: Desde a época em que vocês tiveram o primeiro contato com os instrumentos musicais até vocês montarem uma banda, levaram 9 anos apenas …

Rodrigo: Sim. Em 2015 em uma festa da música em Canelas, a Gabi teve a oportunidade de cantar uma música e resolveu levar eu e o Diogo e seria uma oportunidade de divulgar o trabalho de ambos em apenas uma apresentação. E a galera adorou, aplaudiu muito e depois nos perguntaram: “Qual é o nome da banda de vocês?”, “Vocês tem que cantar juntos”. E no dia seguinte, o Diogo e a Gabi ficaram conversando sobre formar uma banda até que pensamos: “Acho que será legal”. Até então, todas as apresentações que havíamos feito de brincadeira, participações, sempre rolava de uma forma diferente …

Gabriela: Sempre sentíamos que brilhava de uma maneira diferente, sabe? E quando nos juntamos, foi diferente.

Rodrigo: A aceitação foi diferente! E na época criamos as nossas redes sociais, postamos dois vídeos de apenas 15 segundos no Instagram e fomos chamados para fazer um teste para o programa Superstar. Fizemos a audição, passamos e foi muito legal para a gente também. Havia aquela mistura de nervosismo com aquela coisa de TV, não sabíamos se queríamos participar porque estávamos amadurecendo como banda, mas foi legal a aceitação da galera, foi incrível, fizemos a porcentagem recorde dos programas e continuamos a postar vídeos na internet e as coisas começaram a andar. E agora, depois de um tempão, compor um CD, estamos gravando um segundo álbum e decidimos lançar a música Meu Abrigo que foi a música que cantamos naquela festa da música em Canelas.

Diogo: Meu Abrigo agora é o nosso single de trabalho. Escolhemos, não só pela época do ano.. Sempre achamos que o Verão combina muito com a música, mas escolha dela é por ser um “xodó” nosso desde o começo. Sempre foi uma música que abraçamos.

 

 

“As ideias surgem muito de sensações e elas podem ser tanto de influências musicais ou de experiências de vida”

 

 

 

Marcelo de Assis: O novo projeto de vocês é um EP que sairá pela Universal Music. Qual foi a sensação de assinar com a gravadora?

Gabriela: Cara, vou te falar uma coisa: recebemos várias propostas mas queríamos muito assinar com a Universal. A nossa primeira visita foi na sede da gravadora no Rio e foi surreal. Marcou! Estávamos cantando em uma sala quando de repente, entrou o presidente Paulo Lima já dizendo: “Onde que assina?” (risos).

Rodrigo: Teve um momento que eu achei que não ia acontecer (assinar o contrato). Mas deu tudo certo. Nós tivemos três grande passos para isso: o Superstar, que foi um primeiro passo incrível e que tivemos uma boa aceitação do público. O segundo: o escritório e o terceiro passo, a gravadora.

Marcelo de Assis: Qual foi a inspiração para a capa deste EP?

Gabriela: Queríamos algo que transmitisse união, simplicidade e fosse pop ao mesmo tempo. Algo mais clean. Que mostrasse que somos irmãos.

Marcelo de Assis: E o que o novo EP apresenta em termos de musicalidade?

Rodrigo: As três músicas permeiam o universo do pop. A primeira, Meu Abrigo, é um pop reggae, Transmissão de Pensamento é um pop levado para o folk e Ouvi Dizer costumamos dizer que é totalmente pop.

Marcelo de Assis: Todas autorais?

Gabriela: Todas! Não por uma restrição a outros autores. Nós gostamos muito de escrever e tivemos muitas opções. Tínhamos umas 40 músicas para escolher …

Marcelo de Assis: E como surge a inspiração?

Gabriela: É bem natural. As vezes vem uma inspiração através de uma frase, um refrão. Ou as vezes por uma experiência que vivemos.

Marcelo de Assis: E como é esse processo de composição de vocês?

Rodrigo: Nos reunimos na sala. Eu acho que as ideias surgem muito de sensações e elas podem ser tanto de influências musicais ou de experiências de vida. Quando você está aberto a compor, tudo pode ser motivo de composição. E acreditamos que tudo que é diferente, desperta atenção das pessoas. É isso que toca o seu coração. Então procuramos sempre fazer um tema sobre uma ótica diferente, com uma melodia diferente, algo que faça as pessoas se sentirem presentes.

Marcelo de Assis: Vocês falaram sobre os gêneros musicais inseridos nas composições de vocês e é notório que existem influências de rock, folk e reggae. E pesquisando sobre o trabalho que realizaram, vejo que criaram um medley que contém o clássico Isn’t She Lovely do lendário Stevie Wonder que é um mestre da Soul Music e R&B. Como essas referências chegaram a vocês?

Gabriela: Que audácia nossa né? (risos).

Marcelo de Assis: Eu acho ótimo!

Gabriela: Eu acho que muitos dos artistas dos quais fazemos as releituras, as vezes o Diogo e o Rodrigo também trazem isso, no caso do Stevie Wonder, eu acabei trazendo um pouco dessa musicalidade mais em decorrência dos músicos que eu convivi quando comecei no samba, conheci uma galera do jazz também e acabei bebendo muito dessa fonte.

 

 

“Esse lance dos fãs é tão bonito! É um presente para nós! Fizemos um show em Recife e eles foram nos encontrar. Realmente emociona! É um presente, não tem explicação!”

 

 

 

Marcelo de Assis: Quais artistas internacionais vocês tem ouvido recentemente?

Melim: Ed Sheeran, Shawn Mendes, Jason Mraz, Joss Stone, Amy Winehouse, tanta coisa!

Marcelo de Assis: E como vocês definem as suas composições nesse sentido. Digo na estrutura musical. Com tantos gêneros, como vocês canalizam isso e entram em definição?

Gabriela: Somos muito melodiosos. Em termos de assunto, sempre tentamos mostrar um apelo popular, para que seja acessível para todo mundo.

Rodrigo: Tem um pouco de poesia também, mas sempre buscando uma forma direta de nos comunicarmos com o nosso público.

Gabriela: Não gostamos de criar nenhuma forma complexa de entendimento verbal em nossas composições.

Diogo: Em questão de levada musical, ainda estamos nos descobrindo também. Ainda não temos a certeza de todas as levadas que cabem em nosso estilo. Entendemos que isso faz parte da gente, estamos amadurecendo como banda.

Marcelo de Assis: E como é a conexão de vocês com os seus fãs?

Gabriela: Eu sinto que o nosso público é muito educado, diferente. Os comentários nas redes são sempre qualitativos. E temos público de todas as faixas etárias.

Rodrigo: Eu acredito muito no lance do trabalho. O trabalho sempre dá resultados. Mas esse lance dos fãs e tão bonito o que fazem. É um presente para nós! Fizemos um show em Recife e eles foram nos encontrar. Realmente emociona! É um presente, não tem explicação!

Diogo: Quando você realmente tem o carinho das pessoas, mesmo online, você se sente amado, se sente abraçado pela galera e sempre queremos retribuir tudo isso.

Marcelo de Assis: Quais são os planos futuros após o lançamento deste EP?

Diogo: Temos um disco para ser lançado, já estamos em estúdio e será no meio do ano. Ainda não sabemos se sairá como um novo EP ou álbum completo.

Gabriela: Vai depender muito da resposta deste EP que lançamos!

É jornalista e pesquisador musical. Cobre shows nacionais e internacionais e já entrevistou bastante gente interessante do Brasil e do mundo. Foi vencedor do Prêmio TopBlog Brasil em 2010 na categoria "Música"e foi membro do Grammy Latino.

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Entrevista com Rodrigo Ratto da Ditto Music: “Transparência e simplicidade funcionam no mercado”

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Entrevista com Rodrigo Ratto da Ditto Music: "Transparência e simplicidade funcionam no mercado"
Divulgação | Ditto Music

Rodrigo Ratto é o homem a frente do escritório da Ditto Music no Brasil, uma das empresas mais inovadoras do mercado musical e que tem em seu portfólio, pilares globais da indústria como Ed Sheeran, Sam Smith, Stormzy e Chance The Rapper. Com vasta experiência no mercado fonográfico brasileiro, Ratto possui uma trajetória de sucesso na área comercial, principalmente pelo seu trabalho na Universal Music, onde foi diretor de vendas da major.

Nesta entrevista exclusiva ao TMJ, Rodrigo Ratto fala sobre seu trabalho na Ditto e os rumos que os artistas independentes devem seguir para alcançar o tão almejado sucesso e, também, sobre sua atual visão do mercado fonográfico, deixando a dica que, para que os objetivos na indústria sejam alcançados, é necessário “o foco no atendimento e o desenvolvimento de uma equipe que fala a linguagem do mercado”.

Confira a entrevista:

Foto: Divulgação | Ditto Music

Foto: Divulgação | Ditto Music

Marcelo de Assis: Como foi o ano de 2019 para a Ditto?

Rodrigo Ratto: O ano passado foi muito bom. Completamos agora em abril o nosso terceiro ano de operação no Brasil. A Ditto hoje está presente em vinte países, com vinte e três escritórios, tendo como base os escritórios de Londres e Liverpool. Aqui no Brasil temos uma equipe completa e no ano passado tivemos uma das melhores performances em número de streamings e a mais alta taxa de sucesso de participação em playlists editoriais, comparado as outras operações.

Marcelo de Assis: Mas para a sustentabilidade da empresa foi positivo …

Rodrigo Ratto: Sim foi positivo e nós temos uma coisa curiosa: o Brasil é o único país de língua portuguesa em toda a operação e seguimos praticamente sozinhos. Temos uma presença latina em mais de 10 países, com escritórios na Espanha, México, Colômbia, Argentina, Chile, Peru entre outros que se ajudam mutuamente, além dos artistas Anglo que podem ser distribuídos em diversos países como EUA, Inglaterra, Canadá, África do Sul, Europa e Austrália, por isso foi muito bacana saber desse resultado, ficamos muito felizes. A nossa taxa de sucesso em termos de entrada em playlists editoriais, foi a maior comparada a todos os escritórios da Ditto no mundo. Também considero que o nosso atendimento é um diferencial, sendo mais humanizado. A forma como atendemos os artistas e selos, como fazemos o planejamento e estratégia de lançamentos, o envolvimento de toda a equipe no projeto. Sempre atendemos todos os clientes, o primeiro contato, normalmente é realizado por mim e depois passa por cada membro da equipe.

Marcelo de Assis: Ainda mais com um produto digital onde tudo hoje é na base do “self”, o que não há nada de mal nisso, mas com toda essa universalização digital, ainda se observa a necessidade de um trabalho humanizado. Com base nos números que você me apresentou, vocês tiveram um ano que pode se considerar de um crescimento exponencial bem interessante, mas o que realmente impulsionou todo esse crescimento? E quais são os artistas que colaboraram para este impulsionamento da empresa?

Rodrigo Ratto: Quando a Ditto abriu no Brasil, eu estava sozinho, tinha apenas dois artistas para distribuir. Havia trabalhado em uma multinacional durante 12 anos e tive que começar isso do zero, e aos poucos, fomos penetrando no segmento indie rock com artistas que não estavam sendo bem atendidos pelas outras distribuidoras e que passaram a migrar para a Ditto, com isso, começou a funcionar o “boca-a-boca”, foi quando começamos a assinar mais artistas e surgindo cada vez mais oportunidades, e foi neste segundo estágio que começamos a entrar em outros segmentos com o de MPB, Trap, EDM, Samba e que surgiu uma abertura para artistas da nova safra de MPB como Clara Valverde, Mariana Nolasco, Scatolove, Clarice Falcão, Lourena, Amanda Magalhães, Bemti e Ana Cañasque está desde o começo com a gente. Estruturamos melhor a empresa e começou a surgir uma maior procura pelos nossos serviços. Participamos da SIM, de algumas conferências e convenções do mercado e em dezembro do ano passado fizemos a nossa própria convenção, a DITTO X onde criamos painéis bem interessantes com empresários e artistas, além de showcases. Então, tudo isso foi o resultado de um trabalho com foco no atendimento, desenvolvimento de uma equipe que fala a linguagem do mercado e as coisas foram acontecendo. Estamos tendo um número maior de lançamentos nessas últimas semanas, principalmente. Dentro de toda essa situação que estamos passando, os artistas estão produzindo mais. Não houve queda nos lançamentos, aliás, houve aumento.

Marcelo de Assis: Talvez em decorrência da quarentena …

Rodrigo Ratto: Eu acho que é isso também. Esse é um ponto importante, porém difícil de lidar. O setor de show business está muito complicado, todos os artistas estão sofrendo com isso. Então, essa linha de negócios, zerou. Sem receita o artista tem que produzir. As majors seguraram os principais lançamentos e isso abriu mais espaço para os independentes. As plataformas estão precisando de conteúdo novo e o que falo para os artistas é que produzam e distribuam mais produtos. Com esse problema da pandemia, as pessoas ficaram recolhidas em casa, então, é natural que algumas linhas de receitas referentes ao streaming caíram, como aquele momento em que você estava no trânsito entre o deslocamento casa-trabalho-trabalho-casa em que você consumia música, não está mais acontecendo. Quando você ia na academia e levava seu smartphone para ouvir música, também não rola mais, além disso o seu espaço também teve de ser dividido com os outros membros da família, que querem assistir ao Netflix, a Amazon, a Disney+, etc. Enfim, apesar de uma pequena queda no consumo musical de streaming, existe uma demanda muito grande para novidades. Você pode consumir catálogos ou criar playlists, mas você quer ter lançamentos. Tivemos poucos casos de artistas que adiaram lançamentos por causa do momento, mas sempre incentivamos que os lançamentos aconteçam agora, aproveitar o momento de consumo, porque essa pandemia não tem previsão de término.

Entrevista com Rodrigo Ratto da Ditto Music: "Transparência e simplicidade funcionam no mercado"

Foto: Divulgação | Ditto Music

Marcelo de Assis: Você trabalhou em uma grande gravadora durante muito tempo e conheceu bem todo aquele ecossistema que elas tem de lançamentos, promoções de carreira e de marketing. Como foi implementar essa experiência ao abrir uma filial da Ditto, que nasceu para um mercado completamente digital?

Rodrigo Ratto: Essa é uma pergunta legal de responder. Completei recentemente 25 anos no mercado de música, comecei no varejo, trabalhei na Saraiva como comprador, depois trabalhei no WalMart como diretor de entretenimento e depois fui para a indústria quando fiquei 12 anos na Universal Music, sendo gerente regional, diretor, vice-presidente comercial e participei de muitos acontecimentos, como a mudança entre o físico e o digital, participei dessa virada, diminuindo a produção física drasticamente. Saímos das produções nas fábricas de Manaus, migramos para São Paulo enquanto que surgiu o iTunes, depois vieram os streamings com o Rdioo primeiro -, depois o Spotify e a tendência que era 80% físico e 20% digital, se inverteu completamente. Toda essa experiência foi muito rica e marcante e depois me tornar um distribuidor digital independente, foi um grande desafio. Não digo que no começo foi fácil, mas hoje eu sinto muito orgulho do que foi feito. Foi interessante começar esta nova etapa, mas ao mesmo tempo, tive que me reinventar …

Marcelo de Assis: Foi uma reengenharia …

Rodrigo Ratto: Foi uma reengenharia, uma reinvenção e o tempo foi passando. Os relacionamentos que criei me ajudaram muito e foi um dos motivos de ter assumido essa posição, do pessoal da Ditto ter me procurado. Na época das majors, não tínhamos noção do tamanho do mercado independente no Brasil, você vivia num mundo fechado e não tinha a mínima ideia qual era o tamanho e como funcionava. Quando entrei nele, eu me assustei. Fiquei totalmente impressionado com o universo do mercado independente, coisa que dentro das gravadoras ninguém imaginava que exista. Por outro lado, a concorrência é enorme, atualmente, o mercado local possui em torno de 10 distribuidores digitais, fora as grandes gravadoras.

 

 

“Primeira coisa é ter talento e um bom produto. Todos os dias nascem artistas e você sabe como é fácil produzir musica hoje em dia, em seu quarto, em seu home estúdio. Se ele acreditar no seu trabalho, ter perseverança e foco, as oportunidades surgem”

 

 

 

Marcelo de Assis: Isso não se deve pelo fato de que as majors sempre se interessaram no mercado mainstream e não tinham olhos para esse nicho de artistas independentes? Era assim?

Rodrigo Ratto: Era um pouco isso, além da falta de conhecimento e desinteresse. O mercado gospel, por exemplo, era um mercado enorme, que todos tentavam entrar, mas era extremamente fechado e você tinha que ser do meio, tinha que ter a linguagem. . As gravadoras tentaram algumas vezes entrar, mas não com tanto sucesso, inclusive tiveram que montar um departamento exclusivo para o segmento. Quando entrei no mercado independente , eu percebi que é um mercado totalmente competitivo e que cada vez agrega mais artistas das majors…Por que? O que a gravadora dá para o artista hoje? A chancela de uma marca e a mesma receita de bolo para todos ou ainda ter direito a um percentual de todas as receitas ativas e passivas do artista e não ter comprometimento de quanto investirá no marketing e desenvolvimento dele. Então, o que vem acontecendo nos últimos anos é a saída dos artistas das gravadoras para as distribuidoras independentes, o que acaba sendo interessante e lucrativo para eles, recebendo 70% a 80% dos seus royalties de vendas ao invés do formato tradicional das gravadoras, que paga menos e não garante o quanto investirá em sua carreira. Então, a mudança veio para os artistas também.

Marcelo de Assis: No dia-a-dia, em análise de mercado, uma distribuidora independente visualiza essa “guerra” de mercado com as gravadoras ou não se tem esse tipo de preocupação?

Rodrigo Ratto: Há sim uma competição. Nós que estamos ainda em início de operação, distribuímos alguns artistas que foram de majors, mas que estão saindo delas por conta própria, porque não estão mais satisfeitos com o trabalho ou não são mais interessantes para as gravadoras. Já aconteceu de alguns artistas, que encerraram seus contratos com gravadoras virem nos procurar para cuidar de sua distribuição digital É só ver os charts de streamings, onde normalmente 40% das posições, ou em alguns casos até mais, vem sendo ocupados por artistas independentes.

Marcelo de Assis: Então, isso nos leva a compreensão de que as gravadoras estão enxergando uma mudança de trabalho para se equiparar ao trabalho das empresa independentes?

Rodrigo Ratto: Claro que sim, eles estão se baseando nisso. Eles estão ficando mais enxutos, não precisam mais de toda aquela estrutura e ao mesmo tempo tem que ser mais competitivos e atraentes para os artistas melhorando, claro, os percentuais de ganho. Estão abrindo mão da divisão de royalties dependendo do comprometimento ou não de marketing.

Marcelo de Assis: A apresentação do site da Ditto conta com imagens de artistas famosos. Por ser uma empresa que trabalha com produtos independentes, por que outros artistas que não são tão famosos, não aparecem no rosto do site?

Rodrigo Ratto: Normalmente tentamos dar essa oportunidade para todos. Hoje acredito que tenhamos por volta de 2.000 artistas utilizando a nossa plataforma de autoatendimento e pode ser que dali saia um grande artista que possa ter a sua imagem destacada no site. O Ed Sheeran e o Sam Smith, por exemplo, tiveram os seus primeiros trabalhos distribuídos pela Ditto, o Chance The Rapper também distribui com a gente. O site é muito importante para os artistas em começo de carreira que procuram uma oportunidade de distribuição e o serviço de autoatendimento é feito para isso, tentamos deixa-lo da maneira mais didática e intuitiva possível.

Marcelo de Assis: Ratto, o que é ter um artista independente e transformá-lo em sucesso? Como é que ele chega lá?

Rodrigo Ratto: Primeira coisa é ter talento e um bom produto. Todos os dias nascem artistas e você sabe como é fácil produzir musica hoje em dia, em seu quarto, em seu home estúdio. Se ele acreditar no seu trabalho, ter perseverança e foco, as oportunidades surgem. Claro que tem que ter um investimento em sua carreira, tem que estar muito bem atualizado, inserido nas redes sociais e talvez um selo possa dar um suporte maior em sua carreira. Se estiver sozinho e for 100% independente é preciso contar com os amigos e parceiros para ajudar neste início de carreira.

Marcelo de Assis: Como é o seu relacionamento com o Lee Parson e como ele enxerga o crescimento da Ditto ao longo dos anos?

Rodrigo Ratto: O Lee e o seu irmão eram músicos e assinaram com uma grande gravadora, mas o trabalho deles ficou parado por três anos e nunca foram lançados, ou seja, ficaram na famosa “geladeira”. Frustrados com a situação criaram uma distribuidora independente. Mudaram de Birmingham para Liverpool e aí tiveram o primeiro sucesso de um artista independente que alcançou o TOP 40 no Reino Unido, coisa inédita até aquele momento e que rendeu até um registro no livro de recordes do Guinness pelo feito. O Lee tem uma visão diferente: ele acha que o mercado de distribuição nos dias de hoje é praticamente um mercado de commodities e tem criado muitas oportunidades e frentes de trabalho para a Ditto, como o sistema de blockchain, as lojas Ditto Coffee, o gerenciamento de artistas e a abertura de novos escritórios ao redor do mundo . Ele é um cara que cria muitas coisas, não para nunca. Ele ama o nosso país, já esteve aqui várias vezes e nos dá uma liberdade de trabalho tremenda.

Marcelo de Assis: É uma liberdade corporativa que mais parece uma liberdade artística …

Rodrigo Ratto: Sim, total. Dependendo do momento atuamos com A&R também, quando temos interesse em assinar com um artista ou selo, apresento e divido com a equipe, fazemos a parte de curadoria, estratégia e cronograma do lançamento juntos. Quando você acerta uma vez e outra, o artista confia e fala bem de você. Então isso é bem legal, e assim que o mercado independente tem que ser, totalmente transparente e ter é uma linguagem direta: você não precisa passar pelo presidente, que vai para o A&R, que vai para o marketing e depois para as vendas…. Essa transparência e simplicidade é o que tem funcionado no mercado.

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Entrevista com Sérgio Affonso, presidente da Warner: “O digital democratizou a música”

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Entrevista com Sérgio Affonso, presidente da Warner: "O digital democratizou a música"
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Ele está a frente da empresa que conta com um cast que está na vanguarda do pop atual como Anitta, Ludmilla e IZA. Sérgio Affonso, presidente da Warner Music Brasil iniciou sua bem sucedida carreira na indústria musical ainda nos anos 1980 na saudosa EMI-Odeon. Também passou rapidamente pela gravadora Copacabana, entrando para a equipe da WEA na mesma década, onde foi diretor de marketing internacional.

Com excelentes resultados na companhia pavimentou o caminho para que Affonso fosse nomeado presidente da filial mexicana em 2001, por onde permaneceu durante um período de seis anos. Já em 2006, ele retorna ao Brasil para assumir a presidência da Warner Music, onde segue no posto até hoje.

Com grande experiência no mercado musical dos anos 1980 e no novo mercado, onde as gravadoras trabalham em sistema 360º e proficiente na era digital da música, Sergio Affonso concedeu uma entrevista exclusiva ao TMJ para falar sobre a fase atual da Warner, os artistas que formam seu quadro e sobre os valores do funk e do pop brasileiro, deixando claro que não há uma preferência musical predileta: “Eu quero trabalhar com boa música”.

Confira:

Entrevista com Sérgio Affonso, presidente da Warner: "O digital democratizou a música"

Marcelo de Assis: Como foi o ano de 2019 para a Warner Music Brasil?

Sérgio Affonso: O ano de 2019 foi muito bom para a gente. Conseguimos alguns resultados até de certa forma imprevisíveis, para uma companhia como a Warner ter a música sertaneja mais tocada no Brasil quando eu tenho apenas três artistas sertanejos na companhia: Paula Mattos, Day & Lara e João Gustavo & Murilo. Então, foi um ano muito bom para a gente, terminamos o ano muito bem em posicionamento de charts e os artistas novos como foi o caso da Giulia Be, do PK, da consolidação da carreira da Pocah, isso sem falar de Anitta, IZA, Ludmilla, Ferrugem que são os grandes nomes, mas foi um ano muito bom para nós.

Marcelo de Assis: Eu vejo que a Warner, já a alguns anos, aposta bastante na música pop. Isso é notável no mercado. Será esse o caminho a ser seguido pela companhia nos próximos anos ou haverá a possibilidade de se abrir um espaço maior para outros gêneros?

Sérgio Affonso: Olha Marcelo, nunca houve da minha parte, uma concentração em apenas um gênero musical. Na verdade, existe um dado que é importante se destacar, que quando começamos a trabalhar com o funk, acredito que fomos a gravadora das majors que mais investiu no gênero, o funk não era considerado pop, pelo contrário, era meio maldito até. E aí o funk foi crescendo tanto que virou pop. Eu não tenho uma preferência por um segmento musical. Houve essa coincidência, mas sou uma companhia que tenho outros gêneros musicais como o Papatinho, Miranda, o Suel que é um sambista, o Pedro Sampaio que é um DJ do funk, do pop, estou lançado duas artistas novas agora que são uma preciosidade, dentro de um segmento pop, uma mais pop no sentido da palavra, a outra mais sofisticada, mais adulta que é a Samantha Machado e Elana Dara, que é uma artista incrível. Então eu tenho todos os segmentos dentro da companhia, não tenho nenhuma definição do tipo “só quero trabalhar com esse segmento”. Para mim, eu quero trabalhar com boa música. As vezes, nem sempre é possível, colocamos algumas coisas no mercado que muita gente não curte, mas são expressões autênticas de quem realiza seu trabalho. Mas eu quero trabalhar com música e não tenho um segmento direcionado.

 

 

Eu vejo isso como muito positivo isso, nada que atrapalhe a música e nada que impeça que o funk continue crescendo – Sérgio Affonso, sobre o atual funk brasileiro.

 

 

 

Marcelo de Assis: a Anitta se consolidou no mercado brasileiro e está muito bem no mercado internacional. Qual foi a fórmula para esse trabalho artístico ter uma ascensão, do artista que era do funk e migrou para o pop? Em outras palavras, em que meios a gravadora consegue colaborar para que o artista tenha essa ascensão?

Sérgio Affonso: Ah essa pergunta é complicada! Primeiro de tudo, o que sempre digo, no caso da Anitta, pela obstinação, o foco que ela tem, é um caso que deverá ser estudado, porque, desde a primeira reunião que tive com ela, ela falou tudo o que ela queria e tudo o que ela queria, eu diria que 99% está acontecendo. Uma artista absolutamente focada, trabalha como poucas pessoas eu conheci na vida, então ela tem foco, obstinação, muita força de trabalho e inteligência. A gravadora entrou apoiando, no que era possível, tudo o que a Anitta pleiteava com a gente. Obviamente, nem tudo é possível mas sempre apoiamos ela e sempre tentamos dar o retorno a qual nos propormos: de alavancar a carreira do artista, de ajudar a fazer sucesso, mostrar a música do artista para um número maior de pessoas. E foi o que fizemos desde o começo, todo o suporte financeiro, de equipe, e os resultados têm acontecido. A Anitta realmente merece. A carreira dela está realmente deslanchando lá fora, as coisas estão acontecendo e estamos muito felizes. Agora, nós temos outros artistas que estão em uma performance que temos que reconhecer que são espetaculares como a IZA, o ano passado foi muito da Ludmilla. Não é fácil: diretor de marketing, técnico de futebol e médico, já dizia minha vó, todo mundo quer ser, todo mundo quer saber. Então muitas vezes as ideias se conflitam, há divergências, mas temos conseguido, graças a Deus, ter uma compreensão dos nossos artistas e da equipe com a qual trabalho, tocar para frente e ver os resultados que estamos alcançando.

Entrevista com Sérgio Affonso, presidente da Warner: "O digital democratizou a música"

Marcelo de Assis: O mercado atual não dá para comparar com as décadas de 1980 e 1990 porque mudou muita coisa. O que se percebe hoje é que esses artistas novos que têm uma potencialidade artística muito grande, parece que encontram um caminho mais rápido de se criar uma conexão com artistas estrangeiros. A Ludmilla fez isso, a Anitta também fez isso, a Pocah fez turnê internacional e há muitos anos, esse intercâmbio não era algo tão rápido. Como você analisa essas mudanças?

Sérgio Affonso: Eu participei disso tudo há muitas décadas e realmente a dificuldade era enorme, porque falamos um idioma que parece meio “exótico” e que nem sempre os artistas internacionais conseguem cantar facilmente e não haviam as ferramentas que existem hoje. A ferramenta digital, a internet, os serviços de streaming universalizaram a música. Hoje, uma música tem uma chance maior de chegar lá fora muito mais rápido do que antigamente. Então eu acho que a internet e os serviços digitais democratizaram essa possibilidade. Pode haver um cara, nesse momento, lá no Curdistão, ouvindo uma música da Anitta, da Ludmilla ou do Ferrugem. Eu por exemplo adoro música estranha. Se você olhar minha playlist, só tenho música árabe, música do Marrocos, música indiana, porque eu gosto de descobrir o que está rolando. Então, eu acho que isso deu uma abertura muito grande para música. Mas tem outra coisa: depois da Bossa Nova, nós colocamos uma outra música altamente dançante e contagiante, que é o funk. Muita gente no Brasil, execra, fala mal, tem muita coisa ruim mesmo. Tem coisas que doem no coração, mas é uma música para dançar, não é uma música para filosofar. E isso ajuda muito porque, o público em geral, que consome música hoje no mundo inteiro, é um público muito jovem. Então está interessado em se divertir e eu acho que tudo isso ajudou bastante na abertura para esses artistas. Esses artistas da nova geração, a IZA, Ludmilla e Anitta já vivenciaram isso que estou falando. Eles já nasceram no meio dessa modificação do mercado, dessa abertura digital. Um dos artistas que eu amava muito, com quem trabalhei, o Gonzaguinha (1945-1991), por exemplo, ele nunca teve discussão comigo sobre carreira internacional. Porque era quase impossível. Acontecia uma turnê aqui e ali e era tudo. E hoje não, a Ludmilla, que tem 24, já chegou nesse mercado. Pedro Sampaio, estourou esse problema do coronavírus, no dia seguinte ele já tinha uma música ensinando a lavar as mãos. Eles estão nesse pique que é muito veloz, muito rápido, não dá para acompanhar não.

Marcelo de Assis: Muitas pessoas me questionam o funk a partir de uma herança cultural. Bem sabemos, que o funk, inicialmente, começou nos anos 1960 nos EUA. E certa vez, entrevistei o Caetano Veloso que explicou que essa batida do funk daqui era derivada de um ritmo de Miami, chamado Miami Beat Sound. Apresentar o funk tal qual como ele é hoje, um produto pop, não cria um distanciamento da referência histórica que é o funk norte-americano, de sua construção melódica?

Sérgio Affonso: O funk carioca, de onde tudo começou, tem a ver com esse Miami Beat Sound e foi evoluindo. No meu entendimento, o funk é uma música legítima nossa. Eu trabalhei com muito baile funk no Bangu, no Magnata, enfim, em vários clubes aqui no Rio de Janeiro. Naquela época, eu fazia promoção com o Furacão 2000, o DJ Marlboro, nós víamos que naquela época as pessoas, da forma que começa para mim, como eu vivi, eu presenciei 5 mil pessoas no baile funk, em um sábado à noite, sem ar-condicionado, sem nada, 60 graus naquele lugar, pessoas dançando e fazendo as suas versões com letras em cima de uma música de sucesso internacional. Eles inventavam a letra. A música Bette Davis Eyes da Kim Carnes que ela falava “she’ll unease you” e como as pessoas não sabiam dizer isso, falavam “Seu Anísio” e acabava virando o “Melô do Seu Anisio”. Começou com essa brincadeira, foram aparecendo os MC’s fazendo música nova e foi se transformando, também no funk de São Paulo, Nordeste e outras derivações. Eu vejo isso como muito positivo isso, nada que atrapalhe a música e nada que impeça que o funk continue crescendo.

 

Anitta é um caso que deverá ser estudado, porque, desde a primeira reunião que tive com ela, ela falou tudo o que ela queria e eu diria que 99% está acontecendo.

 

 

 

Marcelo de Assis: Eu acompanho muitos artistas novos que não estão vinculados à uma gravadora, é o sonho de muitos artistas apesar de toda essa democratização que existe na internet, como companhias independentes – essas empresas sempre existiram. Qual o caminho para esses novos artistas, que por vezes muito talentosos, porém anônimos, conseguirem um lugar ao Sol? Mais diretamente: como a Warner enxergaria esses artistas hoje e conseguiria capitaneá-los para a empresa?

Sérgio Affonso: O que o artista tem que fazer, primeiro de tudo, com essa democratização da internet, é fazer um vídeo com o seu próprio smartphone, cantando e subir ele no YouTube ou Instagram e apresentar para as pessoas, porque acaba chegando para a gente. E outra coisa, é buscar o contato com a gravadora mesmo. Eu sou mais do que feliz em receber esse material e procuro ouvir o máximo que posso de tudo.

Marcelo de Assis: Sergio, eu vejo que as outras gravadoras lançaram lojas com seus produtos. A Warner vai entrar nesse mercado?

Sérgio Affonso: Nós temos uma operação muito pequena de material para colecionáveis, mas a gente ainda vê um grande mercado no Brasil para isso. Eu não tenho, nesse momento, nenhum plano de ter uma loja. Estou trabalhando apenas nessa parte do material colecionável, que atende pedidos de fãs.

Eu vejo isso como muito positivo isso, nada que atrapalhe a música e nada que impeça que o funk continue crescendo.

Marcelo de Assis: Nós do TMJ sempre fazemos matérias de produtos que, por vezes, não são comercializados no Brasil e são distribuídos internacionalmente. E quando os artistas internacionais lançam um álbum com vários formatos, não chega por aqui. Não somos um mercado para esses produtos?

Sérgio Affonso: Marcelo, o que você está falando é parcialmente verdade. Nós lançamos digitalmente tudo o que a companhia lança. Hoje, quando sobe uma música nas plataformas, geralmente ele está liberado para o mundo inteiro, a não ser que haja algumas restrições contratuais que determinados artistas têm. Por exemplo, existe uma artista “A” onde tem uma parte do mundo que ela não pode ser incluída. Fora isso, 80% do nosso catálogo está disponível integralmente. Agora, para o formato físico, o mercado praticamente desapareceu e quem define o que será lançado neste formato aqui é a empresa com a qual nós temos um contrato de distribuição, no caso a RIMO, e eles que definem porque o risco de estoque são deles. Agora todos os artistas do catálogo antigo, a própria RIMO importou cerca de 10 mil discos de vinil de artistas de catálogo. O mercado físico diminuiu a níveis muito baixos, mas o digital está todo disponível. Não temos porque não lançá-los. A não ser aqueles que não existem contratos e, mesmo assim, nós estamos entrando em contato com a família para lançá-los.

Marcelo de Assis: Como que a Warner Music está enfrentando essa quarentena do coronavírus?

Sérgio Affonso: Eu trabalho mais de 30 anos na Warner e digo que estou encantado de ver como a companhia está preocupada com isso. Talvez tenhamos sido uma das primeiras gravadoras a entrar em home-office e temos reuniões atrás de reuniões e ninguém falou de faturamento comigo até agora. O que se fala é se as pessoas estão seguras, se estamos conseguindo tocar o barco, como estão os nossos artistas e empregados. A gravadora está jogando muito sério nesse ponto e vai levar tempo, na minha opinião, para superarmos tudo o que está acontecendo. Na minha opinião, tudo isso será superado 100% depois que aparecer uma vacina ou um tratamento eficaz.

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ENTREVISTAS

Entrevista com Eagle-Eye Cherry: “É um prazer encerrar esta turnê no Brasil”

O cantor e compositor sueco concedeu uma entrevista exclusiva ao The Music Journal Brazil onde fala de seu relacionamento com a irmã Neneh Cherry, de suas colaborações com artistas brasileiros e de sua alegria em retornar ao Brasil.

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Entrevista com Eagle-Eye Cherry: "É um prazer encerrar esta turnê no Brasil"
Nando Machado

O cantor Eagle-Eye Cherry esteve no Brasil pela primeira vez em 1999 quando se apresentou no extinto Free Jazz Festival e voltou diversas vezes nos anos seguintes para turnês concorridas e shows esgotados. Aqui no Brasil, construiu uma sólida base de fãs, impulsionada por sua participação em trilhas sonoras de novelas, filmes e séries como Smallville, Billy Elliot e E Sua Mãe Também, além de parcerias com artistas locais como Maria Gadú e Vanessa da Mata e o guitarrista Carlos Santana.

Entrevista com Eagle-Eye Cherry: "É um prazer encerrar esta turnê no Brasil"

Filho do prestigiado trompetista Don Cherry e da pintora Monika Moki, a música está na vida de Eagle-Eye desde o começo. Com sua irmã Neneh Cherry, hoje também cantora e musicista, viajou o mundo em turnês com o pai. Aos 12 anos, mudou-se para Nova York para estudar cinema e começou a trabalhar como ator, além de baterista para diversos grupos da cena local.

Pouco depois da morte do pai em 1995, retorna a Estocolmo para começar o compor o que seria o seu primeiro grande sucesso comercial, o álbum de estreia Desireless, que projetou o músico para uma carreira internacional, vendeu mais de 4 milhões de cópias e foi disco de platina nos Estados Unidos com sua roupagem pop aliada a elementos de folk e blues.

De lá para cá, foram mais cinco álbuns de estúdio e um disco ao vivo, gravado na icônica casa de shows Circo Voador no Rio de Janeiro, onde também se apresenta nesta nova turnê. Streets of You, seu último trabalho inédito, foi lançado em 2018.

Eagle-Eye Cherry, que chegou a gravar um novo clipe em São Paulo no último domingo (20) e se apresenta na capital paulistana no Cine Joia no dia 23 de outubro e no dia 24 no Circo Voador no Rio, concedeu uma entrevista exclusiva ao The Music Journal Brazil onde fala de seu relacionamento com a irmã Neneh Cherry, de suas colaborações com artistas brasileiros e de sua alegria em retornar ao Brasil para finalizar a sua atual turnê, onde ele diz que “é um prazer muito grande encerrar esse ciclo em lugar que eu gosto tanto”.

Confira a entrevista:

Entrevista com Eagle-Eye Cherry: "É um prazer encerrar esta turnê no Brasil"

Marcelo de Assis: Qual a sensação de retornar ao Brasil e sua expectativas para os seus shows aqui?

Eagle-Eye Cherry: Estou muito feliz em retornar ao Brasil. Estamos em turnê com este álbum há mais ou menos um ano e quando descobri que os últimos shows seriam aqui eu fiquei muito animado. Eu gosto muito do público brasileiro e é um prazer muito grande encerrar esse ciclo em lugar que eu gosto tanto.

Marcelo de Assis: Eagle, você esteve aqui pela primeira há exatos 20 anos. Ainda se recorda daquele momento quando se apresentou aqui?

Eagle-Eye Cherry: Sim, foi no Free Jazz Festival com o Roots e o Finley Quayle. Eu me lembro muito bem, porque cresci ouvindo música brasileira, então, eu sempre soube que viria ao Brasil em algum momento, só que eu acreditava que seria como turista e não como artista. Naná Vasconcelos, que era amigo do meu pai, tocaram juntos e isso se mantém com uma memória muito viva para mim.

Marcelo de Assis: Como você avalia sua carreira até hoje desde o lançamento de Desireless?

Eagle-Eye Cherry: Eu me senti um homem de sorte por ter essa carreira até hoje, porque quando eu comecei eu tive muitos sonhos e realizei muitos deles. Tive participações em programas de TV, coisas que eu não imagina que eu faria e acabei realizando, mas, acima disso, eu consegui criar uma música que resistisse à prova do tempo e eu sinto que consegui isso. É uma grande realização.

 

 

“Eu gosto muito do público brasileiro e é um prazer muito grande encerrar esse ciclo em lugar que eu gosto tanto.”

 

 

 

 

Marcelo de Assis: E você é irmão da Neneh Cherry. Como é a relação de vocês e como vocês discutem a música?

Eagle-Eye Cherry: Eu sou um grande amigo da minha irmã. É minha pessoa favorita. Eu não a vejo sempre, mas, temos uma relação ótima. Temos uma compreensão sobre o outro muito grande e quando estamos juntos, na maior parte do tempo, não falamos sobre trabalho. Cozinhamos e fazemos coisas juntos, mas eu sei que se eu precisar conversar sobre música com alguém, uma das pessoas que mais me entendem é minha irmã, então, me sinto confortável para falar com ela sobre qualquer coisa.

Marcelo de Assis: Você já trabalhou com artistas brasileiros como Maria Gadú e Vanessa da Mata. Como foi essas colaborações e o que elas agregaram em sua carreira?

Eagle-Eye Cherry: Tive uma colaboração com a Maria Gadú e quando estava pensando em fazer uma colaboração, eu descobri a voz dela que é uma coisa maravilhosa e acredito que a música foi para outro patamar e com a Vanessa da Mata, eu acabei descobrindo ela depois de uma colaboração com o Ben Harper, de quem eu sou muito fã e acredito que essas colaborações agregam muito e eu fiquei muito feliz com ambos os resultados.

Marcelo de Assis: Quem é o Eagle-Eye Cherry?

Eagle-Eye Cherry: Eu faço essa pergunta todos os dias quando eu acordo e me olho no espelho! (risos). E quando eu levo muito tempo em gravar um álbum e outro é porque eu ainda tenho dificuldade com essa parte de celebridade. Eu gosto muito de tocar, é tudo para mim, é como respirar, comer, algo vital. Mas ainda tenho essa dificuldade de estar muito exposto e as vezes faço pausas maiores na carreira. Tem esses dois Eagles: o cara que sobe no palco e outro que é uma pessoal normal, que prefere ficar longe das câmeras.

Marcelo de Assis: Música tem que ser a celebração da vida ….

Eagle-Eye Cherry: Sim! Exatamente!

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