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Entrevista com o Paulo Miklos

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Um dos grandes nomes do rock brasileiro, o cantor e compositor Paulo Miklos lançou recentemente o seu novo álbum A Gente Mora No Agora pela gravadora Deckdisc e conversou com a gente para falar sobre este trabalho, além do processo criativo das canções e das parcerias que nortearam este álbum com Emicida, Guilherme Arantes, Arnaldo Antunes e a banda O Terno. Confira:

Marcelo de Assis: “A gente mora no agora!” … Qual inspiração para dar um tema tão profundo para este álbum?

Paulo Miklos: Surgiu na verdade da minha parceria com o Emicida. É um verso dele, da canção que abre o disco A Lei Desse Troço é o nome da canção. E o Emicida, um letrista, poeta fabuloso, quando ele convidei ele para mostrar a ideia da música para fazermos a parceria, ele ficou me olhando e tal e queria fazer um retrato meu. Começou a comentar comigo sobre a minha estrada, minha história e tudo. Acho que justamente a inspiração foi olhar para mim de uma maneira e colocar esse meu momento, de fazer uma coisa inteiramente nova, de estar lançando em uma aventura renovada com todas as possibilidades a sua frente, de estar se lançando para depois do que seria confortável, de estar em uma situação mais segura, de se arriscar e eu acho que tudo isso foi inspirador para ele. “Então chorar é tão importante quanto sorrir”, a música fala um pouco isso, da superação do momento que eu estava vivendo. O disco tem essa coisa biográfica da minha história. É algo que também tem a ver com essa situação de estar totalmente renovado, mas no entanto você está fazendo a mesma coisa que sempre fez. Estou cantando, colocando música nova, aquilo que eu vinha fazendo nas últimas décadas. Mas tem essa renovação grande. Essa coisa do “Sabe onde a gente mora? A gente mora no agora” – que é uma coisa de você não ter que conviver com a nostalgia do passado e não ficar na ansiedade do futuro. Você realizar as coisas aqui e agora. Então essa música realmente meio que definiu o disco de uma certa forma. Além de me definir, é um retrato dele.

Marcelo de Assis: É um auto-retrato?

Paulo Miklos: É um retrato dele (risos). Não o meu! Ele meio que fez um perfil e se inspirou na minha história recente e no meu momento atual. Por isso que “A Gente Mora no Agora” é essa coisa de que como é importante você está inteiro, íntegro, em cada momento, de não estar parado no tempo, não estar vivendo em uma ansiedade mas vivendo aqui e agora. Quando eu fazia um programa de tv, eu recebi o Emicida lá e fizemos uma entrevista muito legal. Então eu já o conhecia pessoalmente e tinhamos essa proximidade mas nunca tínhamos trabalhado juntos. E foi muito bacana. Aliás isso se extende aos outros parceiros, como todo mundo se dispôs, todo mundo se interessou em trabalhar junto e com muita inspiração de instigar as pessoas, os parceiros, de escrever coisas, a cantar, para alguns dei letras para outros, música. Fizemos músicas em parcerias. Esse processo todo é muito rico, muito especial. Fizemos música de todas as formas, inclusive pelo WhatsApp como eu nunca tinha feito (risos).

 

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Marcelo de Assis: Foi boa essa experiência?

Paulo Miklos: Foi ótima, porque é uma maneira muito interessante. Eu fiquei com essas mensagens e depois eu fui fiel, muito fiel ao que eles me mandaram naquelas mensagens. Eles cantarolaram e a partir dali eu construí minha interpretação. No caso da Lourdes da Luz que me mandou vários trechos diferentes e eu reorganizei os trechos na canção. Então foi um processo muito interessante e diferente, porque antes a gente sentava com o violão e cantava, cantava e tal e ia definindo e cristalizando a canção. No dia seguinte você pensava: “Como é que era mesmo a nossa música?”(risos). Haviam várias versões da música. “O pedaço que eu me lembro era assim” (risos).

 

“Gosto de trabalhar junto com gente diferente. E nesse sentido foi meio que natural convidar meus ídolos no  caso do Erasmo Carlos, Guilherme Arantes e aqueles da nova geração que eu admiro”

 

Marcelo de Assis: Você tem parcerias com o Nando Reis e o Arnaldo Antunes neste disco. Como aconteceu?

Paulo Miklos: Eu liguei para o Nando e disse: “Olha vamos compor um música juntos para o meu novo disco”. E aí mandei uma ideia para ele desenvolver e demorou… Ai liguei para ele e me disse: “Fiz uma coisa aqui e não estou muito satisfeito. Me dá mais um tempo”. Aí tudo bem. Tempos depois ele me ligou e disse: “Escuta, aconteceu uma coisa incrível! Acordei de estalo com a música pronta, pensando em você, fiz a música para você e sobre você. É uma coisa incrível né, porque ele conhece minha história, ele conheceu a minha primeira mulher, a Raquel e fez com aquela emoção que o Nando tem quando compõe, como ele sabe colocar isso de uma maneira tão poética e tocante. Aí foi um presentão, fiquei emocionado quando ouvi a música. E o frevo foi assim: eu cheguei na casa do Arnaldo com uma ideia de composição e pensamos “Vamos fazer um frevo”. E aí nos divertimos com essa ideia “Quer trabalhar para si mesmo?” (cantando).  Ela ficou com uma alegria e justamente é uma coisa aguda que meio que desestrutura o próprio sistema, porque você precisa deixar de ser alguém. Então ela é meio zen, por um certo lado, porque todo mundo tem que ser alguém, tem que ter uma carreira e ai está o centro do problema. Porque aí você começa a se comprometer de tal forma que você se pergunta: “Eu estou fazendo aquilo que eu amo, que eu gosto?” É divertido tocar em um tema tão controverso.

Marcelo de Assis: Com tanta coisa acontecendo nesse disco, qual a sua canção preferida nele?

Paulo Miklos: Desse disco? É dificil hein… Mas eu gosto muito dessa música com o Emicida foi muito feliz e ela meio que define o disco. Isso me deu uma felicidade muito grande, inclusive, de poder batizar o disco com os versos dessa música e definir o trabalho, o conceito do disco. Eu acho que é muito feliz quando a gente consegue deixar claro o conceito do disco em uma frase, em uma ideia e resumir o seu trabalho. Eu acho que essa música merece um destaque especial por conta disso.

Marcelo de Assis: Como será o show de divulgação deste trabalho?

Paulo Miklos: O show é muito bacana porque ele será baseado neste disco e tem vertentes diferentes. Por exemplo, a minha história com os Titãs, as coisas que vivi recentemente. Cantar uma do Adoniran (Barbosa), cabe. Por exemplo, eu vivi Chet Baker no teatro e eu cantava uma das músicas dele nessa peça. E cantar uma música dele no show, bacana, é uma coisa legal. Ou então, trazer uma música da minha história, de alguma referência musical como intérprete, alguma coisa que eu quero cantar. Então tem bastante coisa para construir esse setlist.

Marcelo de Assis: A música salva?

Paulo Miklos: Ela alivia um bocado (risos). Para mim ela sempre salva, sempre salvou porque é uma satisfação incrível que eu tenho em fazer música, cantar, compor, encontrar os amigos. A música sempre foi para mim um álibi para encontrar gente, para se divertir, algo que reúne as pessoas. Nunca foi uma coisa absolutária, sempre foi algo ligado ao encontro. E isso para mim é vital. Então salva.

Marcelo de Assis: Você faz parte de grandes expoentes do rock no Brasil. Como você avalia o rock brasileiro nos dias atuais?

Paulo Miklos: Eu acho que ele está muito bem. Eu tenho um exemplo disso no meu disco que é O Terno. Uma banda paulista genial. Os clipes deles são muito legais, eles tem um show legal e o Tim Bernardes que é um guitarrista fabuloso que canta muito bem, compõe muito bem. O Samba Bomba é um samba rock’n’roll, o momento mais ácido do disco e a guitarra é do Tim. Então eu acho que vai muito bem o rock. Eu amo o Garotas Suecas também. É super legal renovar sempre!

Marcelo de Assis: Nos anos 80 o rock era muito notório. Essa notoriedade não parece estar escondida hoje em dia?

Paulo Miklos: Eu acho que a gente teve um momento no Brasil, que talvez não venhamos a conseguir novamente uma superexposição na TV, nas rádios. Eu acho que foi uma fase, um momento e obviamente nos beneficiamos disso. E talvez hoje em dia seja mais difícil porque a música comercial é muito poderosa e isso é bacana, é o que sempre foi. E eu acho que o rock continua tendo uma possibilidade de falar para muita gente. Continua isso. O Terno tem uma linguagem que pode ser entendida por muita gente e o público deles só tende a crescer. Mas as coisas não são tão fáceis assim. Eu acho que nós vivemos um momento na história que foi uma explosão, muita gente talentosa ao mesmo tempo, uma geração muito rica. Eu acho que essa geração atual também vai encontrar seu espaço. Tenho certeza!

 

É jornalista e pesquisador musical. Cobre shows nacionais e internacionais e já entrevistou bastante gente interessante do Brasil e do mundo. Foi vencedor do Prêmio TopBlog Brasil em 2010 na categoria "Música"e é membro do Grammy Latino.