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Entrevista com Patrícia Marx: “A liberdade é a minha bandeira”

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A cantora e compositora Patrícia Marx lançou em novembro o seu mais recente trabalho Nova, seu 13º álbum de estúdio que reúne 14 canções inéditas que conectam á uma sofisticada viagem musical repleta de pop, soul e new age.




O sucessor de Nu Soul de 2008 se destaca em vários momentos, desde a mântrica Supernova, a sedutora You Showed Me How até alcançar o som elaborado de Dentro Em Seu Lugar que conta com a participação especial do produtor norte-americano Paul Pesco, que colabora com seu baixo acústico e teclados e que já assinou trabalhos com grandes nomes da música internacional como Daryl Hall & John Oates, Madonna, Steve Winwood e Mary J Blige.

Patricia Marx concedeu uma entrevista exclusiva ao The Music Journal Brazil para falar deste novo trabalho, que é retrato fiel do universo musical da cantora, que não encontra limites em conectar os mais variados gêneros e estilos para que todos eles criem a perfeita ambientação para a sua inconfundível voz.

Confira a entrevista:

Marcelo de Assis: Patricia, como foi a concepção para o álbum Nova?

Patrícia Marx: O álbum nasceu do zero. Nem foi pré-determinado assim… Eu entrei no estúdio em novembro do ano passado e compus duas músicas com a minha banda em uma jam session e não havia nada programado e as músicas ficaram muito bonitas. Mostrei para o Sérgio Martins da LAB 344, ele gostou muito e disse: “Vamos gravar um disco e eu quero um disco de inéditas!” e eu pensei: “Nossa, de inéditas?!”, nem estava esperando …

Marcelo de Assis: Não estava preparada para isso …

Patrícia Marx: Não (risos). E ele me disse: “Não, vamos lançar um álbum de inéditas, já está na hora, desde 2004 você não lança um álbum de novo, seus fãs estão cobrando …” 

Marcelo de Assis: o que viria ser o sucessor de Nu Soul de 2004!

Patrícia Marx: Sim, sim! Exato! Muito tempo, né? 10 anos! Mas nesse meio tempo eu gravei o Trinta que foi um disco comemorativo dos meus 30 anos de carreira, teve o Trinta Ao Vivo, mas ele não é um álbum como esse. Mas as músicas nasceram do zero: fomos ao estúdio, começávamos a tocar e nasciam as músicas uma atrás da outra. Eu brinco que eu tenho um disco só de interludes de tanta coisa que eu gravei que não entrou no álbum. Eu poderia fazer um Nova 2, um Crescente, um Cheia …. (risos)

Marcelo de Assis: Já está nascendo uma ideia! ….

Patrícia Marx: É … Pois é! (risos)

 

 

“Eu acho que o sucesso é ser quem você é, de verdade, com todos os riscos, com todas as falhas, as loucuras … É você se expor profundamente no trabalho!”

 

 

 

Marcelo de Assis: Esse álbum tem 14 músicas e depois de tanto tempo sem gravar inéditas, como foi o ritmo de criação dessas composições? Até porque todas elas passeiam por diferentes gêneros. Você tem pop, soul e até new age! Como foi usar todos esses ingredientes?

Patrícia Marx: Eu chamei os ingredientes certos! (risos). Os parceiros que eu chamei, são pessoas que eu já conheço. Por exemplo, o Hebert Medeiros, que é o produtor e compositor comigo neste álbum é uma pessoa que eu já conheço, ele já tocou comigo nos shows, tocou no Trinta e eu tenho esse costume de observar o músico, o artista que está comigo e temos essa simbiose musical e eu dou uma tarefa mais difícil para ele: “Ah você é músico, toca bem, sabe os acordes, então nós vamos começar a compor!”. Eu gosto de instigar as pessoas a fazerem outras coisas que elas já sabem fazer. E isso é muito bacana porquê me dá resultados muito interessantes!

Marcelo de Assis: Até porquê é uma forma de como você conduz sua carreira, não Patricia?

Patrícia Marx: É. Eu acho que consigo juntar essas peças e eu sei o que elas podem me dar. O que cada um pode me dar. É quase um scan da pessoa e eu falo assim: “Eu quero esse, esse, esse”. E a soma desses ingredientes são vitais para este tipo de música. Obviamente nós temos gostos parecidos, senão também não aconteceria nada. Mas sempre busquei coisas diferentes. O Sergio Martins da LAB 344 me ajudou muito, fez a direção musical e artística, me dando referências e eu também fui ouvindo coisas totalmente fora do que já ouvi, porque contribui muito com isso, com a nossa vivência.

Marcelo de Assis: É uma conexão!

Patrícia Marx: Sim, exato! E a liberdade, né? A liberdade é a minha bandeira!

Marcelo de Assis: O single Dentro em Seu Lugar que teve a participação do produtor norte-americano Paul Pesco e ele já trabalhou com importantes nomes da música internacional como Daryl Hall & John Oates, Steve Winwood e Mary J. Blige. Como foi trabalhar com ele?

Patrícia Marx: O Sérgio (Martins) que me apresentou o Paul, porque eles já se conheciam de outros trabalhos. Na verdade, eu não conheci o Paul, não conhecia o trabalho dele e conheci depois de ter sido apresentada a ele. Nós conversamos muitas e muitas vezes no WhatsApp e ele é um grande músico, um cara extremamente sofisticado, simpático, rápido na produção … O Herbert (Medeiros) e ele chegaram a fazer algumas músicas e inclusive uma que está no disco foi feita pela internet – cada um em seu próprio estúdio – e ele sacou o que eu queria, o meu jeito de cantar, porque ele ia me mandando as músicas e eu fui colocando as melodias em cima até que ele dizia: “Não, peraí, eu vou fazer outra coisa!”. Foi muito legal trabalhar com o Paul. Adorei! Quero fazer mais coisas com ele, até porque tem muitas coisas que não entraram no álbum!

Marcelo de Assis: Ficou um material que ainda será lançado …

Patrícia Marx: Ah eu quero né? (risos)

 

 

“A liberdade é a minha bandeira!”

 

 

 

Marcelo de Assis: Este disco com 14 músicas que, como dissemos anteriormente, é norteado por diversos gêneros musicais. Ele seria uma forma de desaguar um pouco as suas referências musicais imediatas, Patrícia?

Patrícia Marx: Eu tive carta branca da LAB 344 para poder fazer isso, né? E isso foi mais maravilhoso. Ter apoio, nenhuma cobrança para que ele fosse um disco comercial, ter essa obrigatoriedade de ter de tocar, de ter que dar certo, de fazer sucesso. Eu acho que o sucesso é ser quem você é, de verdade, com todos os riscos, com todas as falhas, as loucuras … É você se expor profundamente no trabalho! Se eu fizesse algo mais do mesmo para mim não seria interessante. Eu preciso estar envolvida, eu preciso acreditar, gostar de estar ali. Fazer o mesmo que fiz sempre, o que todo mundo faz, seria a morte para mim.

Marcelo de Assis: Lembro de você nos anos 1980 no Trem da Alegria e quando você partiu para a sua carreira-solo com o álbum Paty lançado pela RCA em 1987. Você veio do mercado de vinil e como foi acompanhar toda essa mudança tecnológica no mercado musical e qual sua análise sobre ele nos dias de hoje?

Patrícia Marx: Tem o lado bom e lado ruim, como em tudo. A velocidade da internet, tudo em tempo real, a exposição de seu trabalho é algo fascinante. Ao mesmo tempo há muito conteúdo e quase na maioria não é muito bom, pela velocidade e pouca profundidade. Eu vejo que a nova geração não tem essa profundidade que já carregamos de outros carnavais. Tínhamos tempo para fazer música, tempo para se aprofundar mais. Hoje os artistas mais novos não tem tempo para se aprofundar tanto. Eles querem lançar logo e fazer uma música mais plástica, mais visual.

Marcelo de Assis: Seria um mercado imediatista?

Patrícia Marx: Isso! Se não tiver essência, não adianta! Você pode ser rápido, pode ser veloz, pode ter mil instrumentos, mas se não tiver essência, a sua marca …

Marcelo de Assis: E como está a sua agenda para shows de divulgação do Nova?

Patrícia Marx: O shows vão acontecer a partir de março de 2019, além da minha biografia. O álbum será lançado na Europa e no Japão onde também farei shows.

Marcelo de Assis: Os europeus gostam muito da música popular brasileira moderna….

Patrícia Marx: Sim, sim. Quando morei em Londres entre 2002 e 2003 na fase da (gravadora) Trama, para mim foi um divisor de águas ter morado lá, porque a minha música nunca mais foi a mesma. Eu nunca mais fui a mesma. Muda muito a referência, a ousadia, a liberdade, a velocidade de trabalhos publicados, então, isso contribuiu muito para mim.

Marcelo de Assis: O que você escuta em casa?

Patrícia Marx: Eu escuto de tudo. De música erudita a jazz e coisas atuais. Sons experimentais, orquestradas, coisas de filme. Eu tenho duas playlists na minha pagina no Spotify que eu usei para o meu disco e que vai de folk, indie à música erudita, soul, Erykah Badu, muita coisa!

Marcelo de Assis: Muito obrigado pela entrevista, Patricia!

Patrícia Marx: Eu que agradeço a entrevista! Adorei!

É jornalista e pesquisador musical. Cobre shows nacionais e internacionais e já entrevistou bastante gente interessante do Brasil e do mundo. Foi vencedor do Prêmio TopBlog Brasil em 2010 na categoria "Música"e foi membro do Grammy Latino.