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Entrevista com Tiê: “Sempre quis fazer um dueto com Luan Santana”

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A cantora Tiê, que lançou recentemente o single Duvido com o cantor Luan Santana, concedeu uma entrevista exclusiva para o The Music Journal Brazil para falar do novo álbum Gaya, seus futuros projetos, sua primeira participação no Lollapalooza Brasil deste ano e sua visão sobre o mercado musical atual.

Confira:



Marcelo de Assis: Falando sobre o novo single Duvido, que você gravou com o Luan Santana, gostaria de saber como como nasceu esta parceria, haja visto que seus trabalhos operam em gêneros diferentes, navegam em outros mares musicais e de repente surge esta união com um artista consagrado da música sertaneja?

Tiê: Eu sempre gostei de misturar os estilos, então eu cantava no primeiro show Tom Waits e I Want To Sex From My Shirts, umas misturas assim. No segundo disco eu fazia Você não vale nada mais eu gosto de você. Então eu sempre gostei de misturar. Sou muito fã do Luan, acho que ele canta muito bem e eu sempre quis fazer um dueto com ele mas não tinha encontrado ainda uma música adequada para isso. E a gente se conheceu em bastidores de programa e na época que eu fiz o dueto de Isqueiro Azul com Alexandre Carlo, chegamos a pensar no Luan mas a música não tinha muito haver com ele também … Mas quando ouvi Duvido, que quem compôs foi o Rafael Castro, que é um artista totalmente indie, eu disse: “É a cara do Luan essa música!Ai falei: “Posso mandar para o Luan?” O Rafa falou: “Nossa, vou adorar!”. Então inicialmente eu pensei no Luan gravar essa música …

Marcelo de Assis: Você não ia colocar a sua voz …

Tiê: Não, eu não ia! Eu ia entregar para ele: “Achei uma música que é a sua cara!”. E conforme fomos fazendo o disco, entendemos que caberia o convite para o Luan. Então foi uma ideia minha, a gravadora não teve nada a ver com isso, eu mesma mandei um WhatsApp para o Luan e ele respondeu na hora, ouviu e na hora disse: “Essa música é maravilhosa!”. Aí eu disse: “Luan, que bom que você topa, beleza e eu preciso até maio. Você consegue?” E aí ele mandou a música super bem gravada. Foi maravilhoso o trabalho dele. A sensação é que ele ouviu a minha voz-guia várias vezes e até se adequou ao meu jeito de cantar. Eu achei a dedicação dele muito generosa!

Marcelo de Assis: Ele chegou a trabalhar na estrutura da composição?

Tiê: Não mexeu em nada. E passado tudo isso, gravei minha voz com a dele e entrou no disco e deu tudo certo!

Marcelo de Assis: Agora, estamos muito próximos do Lollapalooza Brasil 2018 e o que você pretende apresentar para o seu público no festival?

Tiê: Estamos montando agora isso, muitas reuniões de cenário, de banda… Eu vou fazer uma banda maior do que eu costumo fazer porque o palco é tão grande, então vou chamar naipe, trompete, sax, duas cantoras que escolhi de um concurso que fiz na internet que eu abri para os fãs cantarem e elas farão côro em cinco músicas e isso foi uma experiência muito legal, inclusive.

Marcelo de Assis: gostaria que você falasse sobre essa experiência …

Tiê: Ah, foi super legal porque eu tive essa ideia junto com o André que é o meu produtor musical e tem tanta cantora que grava as músicas e coloca a hashtag #tiê, vamos abrir né? Porque não chamar duas fãs? Aí eu abri esse concurso e funcionou super bem, as fãs foram super atenciosas e eu escolhi duas cantoras maravilhosas e estou muito contente. Acho que será muito legal. É a nossa banda com um pouco mais de gente. Eu tenho 5 mulheres e 5 homens no palco, até porque esse papo de ter só mulher, não é para ser assim. Nenhum radicalismo. Acho importante essa coisa de ter uma força igual, mas não também de excluir os homens.

Marcelo de Assis: Ou seja: igualdade!

Tiê: Exatamente! Acho a igualdade muito importante. Então nós conseguimos equilibrar isso. É um disco que vou apresentar com as músicas novas do Gaya, mas também com A Noite, Isqueiro Azul

Marcelo de Assis: Com mais pessoas no palco, neste festival, podemos dizer que é uma celebração!

Tiê: É uma celebração, o palco é grande e já estamos ensaiando tudo isso e eu acho que será um momento de celebração mesmo, estou muito feliz com esse convite do festival. No ano passado eu fui, porque eu sempre vou assistir, fiz uma mandinga …

Marcelo de Assis: Mandinga?…

Tiê: Fiquei naquela calçada que tem os posters entre um palco e outro e fiquei falando: “Eu to aqui hoje na sarjeta da fama mas ano que vem eu vou tocar aqui”. Aí pensei: “Vou ficar aqui ver se alguém me reconhece”, quando passou um fã e disse: “Tiêêê, eu também”. Foi uma mandinga mesmo! (risos)

Marcelo de Assis: e pelo jeito deu certo! (risos)

Tiê: Deu certo! Eu ficava lá brincando: “Vou sentar para ver se alguém me reconhece e quem sabe o Lolla me convida no ano que vem” (risos). Então deu certo e fiquei muito feliz!

 

o sentimento por mais triste que seja, você canaliza e isso vira uma poesia, uma música, um arranjo”

 

Marcelo de Assis: Gaya nasceu em momento dificil de sua vida, porque sua avó Vida Alves se foi naquele momento. Como foi lidar com a situação e canalizar todo esse sentimento dentro de suas composições?

Tiê: Ah, eu acho que é maravilhoso. O luto funciona muito bem, na verdade. Tem pessoas que brincam “músico não pode ficar com relacionamento estável” (risos). Não pode ser feliz”. E eu sempre falei que isso não é verdade, mas, querendo ou não, você precisa botar pra fora o sentimento. Primeiro fui viajar, fui entender o que aconteceu e em seguida, voltei e falei: “Vamos fazer!”, porque você usa o sentimento por mais triste que seja, você canaliza e isso vira uma poesia, uma música, um arranjo, então eu fiquei muito feliz. Foi um bom deságue para o luto que eu estava sentindo e até o clima do Gaya, com esses elementos de água, essa coisa mais hippie mesmo, era um momento que eu estava precisando rezar mais, purificar mais, pensar em coisas boas … hoje em dia temos tanta informação sem parar de internet, Instagram e de tanta coisa que é bom fazer uma limpeza. Então tudo isso me trouxe até para o nome Gaya, as capas …

Marcelo de Assis: Por quê Gaya?

Tiê: Eu comecei a pensar na morte da minha avó, na sucessão que isso acaba ou não trazendo porque a próxima pode ser a sua mãe e você pensa nas suas filhas, e eu tenho essa sucessão de mulheres fortes na minha família, essa conexão feminina em um momento que se está falando muito sobre feminismo, então eu trouxe muitas mulheres para fazerem as artes da capa, a foto da capa, o clipe e o nome vem de tudo isso e eu acabei caindo em Gaya que, claro, é a mãe-terra, mãe-natureza, mas tem a ver com tudo isso.

Marcelo de Assis: O que a Tiê escuta em casa?

Tiê: Eu agora escuto um cara chamado Charlie Puth! Eu queria tanto ser a Selena Gomez para cantar com ele (risos). Eu escuto todos os dias. Eu e minhas filhas! (risos)

Marcelo de Assis: O que te atrai tanto na musicalidade dele?

Tiê: Eu acho diferente o arranjo dele. Claro que tem esse formato de música pop, mas eu gosto das letras, de suas composições … ele canta bem.

Marcelo de Assis: Como você analisa o mercado musical nos dias de hoje?

Tiê: Eu acho que estamos em um momento que tudo está instável e todo mundo ainda meio apavorado. Mas eu acho que se discute muito sobre só algumas bandas ou estilos que fazem sucesso. Não acho que é o caso. Como no ano passado, o disco da Letrux! Existe espaço para todo mundo. E por que a Letrux chegou dentro do universo dela? Porque o disco tava foda, a roupa tava foda, a atuação dela… Então se você souber fazer o que quer fazer com bastante atenção, dá para você chegar em algum lugar. Eu sempre achei que existe espaço para todo mundo.

Marcelo de Assis: Há muita discussão no mercado musical sobre a distribuição de ganhos dos artistas com as suas obras nas plataformas digitais. Como você analisa esse modelo de negócio?

Tiê: Eu acho que é um caminho que vai mudar. Ele é muito novo. Hoje em dia, a maior importância das gravadoras são as playlists. Antes eram as rádios. É interessante essa mudança toda. Mas está tudo sendo descoberto, as gravadoras entenderam as outras formas de ouvir música, mas todos escutam música digital e não há como negar ela. Tem que ser melhor para todo mundo, porque as porcentagens são minímas mas a música está indo por aí.

 

Foi maravilhoso o trabalho dele. A sensação é que ele ouviu a minha voz-guia várias vezes e até se adequou ao meu jeito de cantar. Eu achei a dedicação dele muito generosa! – sobre Luan Santana

 

 

Marcelo de Assis: Com base na divulgação do álbum Gaya, quais são os planos futuros sobre uma turnê?

Tiê: Hoje a minha preocupação com agenda já mudou. Até por esses ganhos por streaming é importante fazermos shows com mais qualidade e não ficarmos tão preocupados com agenda ..

Marcelo de Assis: Mas você acredita que com essa preocupação pelos ganhos por música digital, não se transformou em um fator determinante a impulsionar o artista a excursionar mais?

Tiê: Eu acho que não. Quando A Noite estourou, não necessariamente eu tive mais shows, até porque tinha shows que o público só conhecia esta canção, mas os fãs mesmo não era a música que gostavam mais, então não acredito nisso. Temos uma agenda de shows aqui, no exterior que estamos fechando, neste ano vou abrir uma Casa da Produtora em São Paulo. Faremos alguns eventos, abriremos para bandas gravarem no estúdio, ou seja, fomentar a música de alguma maneira.

É jornalista e pesquisador musical. Cobre shows nacionais e internacionais e já entrevistou bastante gente interessante do Brasil e do mundo. Foi vencedor do Prêmio TopBlog Brasil em 2010 na categoria "Música"e foi membro do Grammy Latino.