ENTREVISTAS

Tony Bellotto: “Ópera-rock é um marco na carreira do Titãs”

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Os Titãs lançaram recentemente o novo DVD da ópera-rock Doze Flores Amarelas pela Universal Music e que também foi disponibilizado em um álbum em formato digital em todas as plataformas como o décimo quinto disco de estúdio da banda. O guitarrista Tony Bellotto concedeu uma entrevista exclusiva ao The Music Journal Brazil para falar sobre este novo projeto o qual considera “um marco na carreira dos Titãs” e que “inaugura um novo momento no rock brasileiro”.




Para esse musical, se juntaram a Sérgio Britto, Branco Mello e Tony Bellotto, o baterista Mario Fabre,  o guitarrista Beto Lee e três vocalistas: Corina Sabbas, Cyntia Mendes e Yas Werneck, que fazem as  Três Marias do espetáculo. O grupo manteve o produtor Rafael Ramos, utilizou a colaboração  em argumento, elaborada por Branco, Brito e Tony, de Hugo Possolo e Marcelo Rubens Paiva,  convocaram Jaques Morelenbaum para arranjos de cordas e fecharam a escalação.

Bellotto afirmou também em entrevista que, a atmosfera criativa de Doze Flores Amarelas mantém o espírito inicial do grupo: “Aquela essência que tínhamos em 1982 quando formamos a banda, aquela  vontade de se superar”

Confira:

Marcelo de Assis: Tony, como foi a concepção do DVD Doze Flores Amarelas, que é uma ópera-rock e a história nos reporta que a ópera também nasceu para o rock. É por aí mesmo?

Tony Bellotto: É verdade! Justamente começamos a pensar nesse projeto após lançarmos o Nheengatu (2014, Som Livre) que foi o nosso último disco, um álbum muito bem sucedido, ousado, interessante, então pensamos no projeto futuro e queríamos fazer algo que fosse motivador, não apenas um simples disco de carreira ou um conjunto de canções para tocar na rádio, para dizer que você está lançando um disco novo e nessas conversas surgiu a ideia de fazer uma ópera-rock. Pô, ninguém no Brasil fez uma ópera-rock e nós temos referências incríveis no rock como Thommy, The Wall, American Idiot, Jesus Christ Superstar, uma série de coisas interessantes e partimos dessa ideia: “vamos fazer uma ópera-rock!”. A partir daí pensamos: “Temos que ter que contar uma história, ter primeiro uma história para começarmos a compor as canções que vão contar essa história e com isso convidamos o Hugo Possolo e o Marcelo Rubens Paiva, que são amigos, dramaturgos, escritores e diretores de teatro, que são desse universo e começamos a fazer reuniões criativas conversando abertamente sem muita regra sobre o que queríamos falar e a partir daí chegamos na história dessas três meninas, sobre a violência sexual, e então começamos a fazer as músicas – as músicas ajudando as histórias, as histórias ajudando as músicas – e depois de um processo de um ano e meio nós já tínhamos a história feita e a maioria das canções, então, foi assim que nasceu.

Marcelo de Assis: E dentro dessa temática que vem sendo cada vez mais discutida no país e com a mobilização da sociedade, vocês conseguiram extrair 25 composições inéditas. Foi um processo criativo muito intenso, não?

Tony Bellotto: Foi, foi febril. Você tem razão, nessas conversas fomos percebendo que a questão mais interessante hoje em dia, a coisa mais revolucionária que tem realmente é a postura da mulher e a maneira como ela está se colocando em relação a problemas que ela sempre enfrentou em um mundo que há séculos, milênios, sempre foi dominado pelo homem, elas estão conseguindo se impor, em lutar e seu colocar em um mundo que, no fundo, sempre foi muito hostil à elas, então, a partir daí, quando encontramos esse mote de colocar essas três meninas que seriam nossas alter-egos mulheres, protagonistas, começamos a compor de uma maneira muito motivada como você falou, de uma maneira febril mesmo como não fazíamos desde o inicio da carreira, com muita gana e vontade de fazer. Eu moro no Rio, o Branco (Mello) e o (Sérgio) Britto moram aqui em São Paulo e eu passava semanas aqui e nos encontrávamos na casa do Branco todos os dias, compondo e quando eu retornava ao Rio, continuava mandando coisas para eles pelo WhatsApp e, então, fomos compondo de uma maneira muito intensa mesmo e o trabalho reflete isso, essa maneira motivada que permeia o trabalho. E é interessante porque é um trabalho que vai totalmente na contramão do que é o mercado hoje em dia. Fazem músicas individualmente, quando uma banda ou artista consagrado vai realizar um trabalho, geralmente faz um acústico ou um trabalho que ele esteja re-relançando coisas que já foram feitas. E a gente não, vamos fazer aquilo que a gente acredita, então estamos muito satisfeitos com esse trabalho e com a repercussão que ele está alcançando.

Marcelo de Assis: Analisando o material audiovisual deste projeto, tudo o que acontece nesta ópera-rock da banda reforça a conexão que você, o Sérgio Britto e o Branco Mello mantém desde sempre. Me faz me lembrar aquela época inicial de vocês no Sesc Pompéia em 1982 …

Tony Bellotto: É verdade!

Marcelo de Assis: A atmosfera é essa mesma, Tony?

Tony Bellotto: É! É incrível isso, né! Estávamos até comentando aqui, uma banda ao longo de 36 anos de carreira, com toda as transformações que passamos – integrantes saindo da banda, a morte do Marcelo (Fromer, 1961-2001)tanta coisa aconteceu e a gente consegue, depois de todo esse tempo, manter aquele espírito, aquela essência que tínhamos em 1982 quando formamos a banda, aquela vontade de se superar … Porque eu acho assim, realmente o que mantém a banda viva pra gente, é realmente essa gana de fazer as coisas, sabe? Porque no momento em que estivermos burocráticos, estivermos fazendo por fazer, aí a banda naturalmente vai morrer. Enquanto fazemos as coisas com aquela mesma crença que tínhamos a 36 anos, que é preciso superar, é preciso fazer algo que nos surpreenda e surpreenda as pessoas, então é isso que nos mantém vivos e nesse sentido esse trabalho foi muito interessante. Ela realmente sacudiu a gente. Foi muito bom fazer isso, sabe?

 

 

“O que mantém a banda viva pra gente, é realmente essa gana de fazer as coisas, sabe? Porque no momento em que estivermos burocráticos, estivermos fazendo por fazer, aí a banda naturalmente vai morrer”

 

 

 

Marcelo de Assis: Na canção Não Sei, o aspecto audiovisual reflete um ambiente de uma rede social com dois jovens de um lado do palco e uma moça solitária do outro. É uma forma de mexer em uma ferida sobre os diálogos dos jovens nas redes sociais e como foi pensar isso para esse espetáculo?

Tony Bellotto: Eu acho assim, os temas principais da ópera, como esse da violência machista contra a mulher expressada na violência sexual, tem o tema do aplicativo facilitador que é justamente a dependência desse universo cibernético tóxico e da maneira como as pessoas são levadas a uma corrente por essa onda da internet e a relação hedonista entre os jovens, um pouco inconsequente em seus atos, isso forma a essência da história. Para nós foi um desafio, falar das mulheres que é uma coisa difícil, foi algo trabalhado de uma forma sensível pela gente, falar do universo delas, da vida delas, uma coisa que exigiu muito trabalho da gente e temos que falar também dos homens escrotos, execráveis que fazem esse tipo de coisa, então essa música Não Sei é muito difícil de cantar porque ela é cantada pela primeira pessoa pelos molestadores. É uma música cruel. Essa liberdade que tivemos para criar, falando pela voz dos personagens, foi muito interessante para que conseguíssemos contar essa história, deixando bem claro nossa posição a favor da mulher, contra o machismo, das pessoas serem donas de suas próprias vidas independente de aplicativos, enfim, foi uma experiência muito legal e uma coisa inédita em nossa carreira, porque realmente você fazer alguma coisas nova depois de 36 anos você fazer uma coisa nova é um verdadeiro milagre!

Marcelo de Assis: Com toda essa experiência no mercado musical, como você analisa o rock nacional nos dias de hoje?

Tony Bellotto: Olha, eu acho assim, as coisas estão muito mais fragmentadas hoje, né? Então, quando começamos nos anos 1980, até os anos 1990, as coisas para acontecerem haviam poucos meios. Você aparecia nos programas de televisão, aparecia em dois ou três jornais importantes do país e de alguma forma atingia todo mundo. O que vemos hoje é uma grande fragmentação, as coisas não acontecem mais de um jeito só. Claro, continuamos a ver um ou outro fenômeno que consegue aparecer mais que os outros, mas as coisas acontecem em nichos. Por exemplo, hoje não temos uma referência de uma banda brasileira que aconteça nacionalmente, que esteja no mainstream. Porém vemos que existem muitas bandas que realizam trabalhos interessantes que ao meu ver comprovam a força desse rock brasileiro. Não temos mais um fenômeno como acontecia nos anos 1980 em que uma banda como Legião Urbana se tornou uma unanimidade, não vemos isso. E eu acho que muito do discurso político do rock está no rap nos dias atuais. O rap tem alguma coisa do espírito do rock no sentido de levar em frente essa mensagem mais questionadora. E ao mesmo tempo você vê muitos artistas sertanejos que fazem muito sucesso que, as vezes, quando vou a um programa de televisão vejo um dupla que eu nem sei quem são. Por isso que o mercado está mais fragmentado. Já tocamos em um festival de rock em Rondônia onde haviam muitas bandas interessantes. Então eu acho que o rock está aí e é da natureza dele quando nada está acontecendo e vem algo que quebra tudo, trazendo novos parâmetros. Eu sou muito otimista sobre o rock brasileiro apesar de vivermos um momento em que muitas pessoas falam que o rock está enfraquecido, que não tem mais a mesma força que tinha antes. Eu só acho que o momento é outro, mas vejo muita criatividade por aí.

Marcelo de Assis: Agora com o DVD no mercado, quais serão os próximos passos dos Titãs a respeito dos shows desta ópera-rock?

Tony Bellotto: Como essa turnê demanda uma coisa especial, um show maior do que fazemos normalmente com os nossos sucesso, então iniciaremos esta turnê no inicio de 2019, com as projeções, cenários e todo esse aparato. E pretendemos fazer pelo Brasil inteiro, começando em março e abril e seguir este projeto por um ano o qual estamos muito motivados e orgulhosos de termos feito.

Marcelo de Assis: O Titãs ainda contará muitas histórias, não Tony?

Tony Bellotto: (risos) Eu espero que sim, viu! (risos). Estamos realmente muito focados nesse momento da ópera, não estamos pensando em um próximo projeto, mas como te falei, nessa altura da vida e da carreira, cada projeto novo precisa ser algo muito interessante. Fazer um disco por fazer não interessa mais para gente, não dá “o barato”, temos que fazer coisas que nos movam, então, eu concordo com você que ainda contaremos algumas histórias por aí!

É jornalista e pesquisador musical. Cobre shows nacionais e internacionais e já entrevistou bastante gente interessante do Brasil e do mundo. Foi vencedor do Prêmio TopBlog Brasil em 2010 na categoria "Música"e foi membro do Grammy Latino.