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Entrevista com Tuca Mei: “Minhas histórias são inspirações que transformo em música”

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A jovem cantora Tuca Mei, de 23 anos, concedeu uma entrevista exclusiva ao The Music Journal Brazil para falar sobre o seu álbum-début, o EP Olhos Atentos que chega ao mercado através da Tuaregue, com distribuição da Tratore, com 5 músicas que são relatos poéticos de experiências vividas pela artista.




Tuca também falou sobre o inicio de sua carreira, a concepção deste álbum que foi lançado em setembro de 2018, além de suas inspirações para compor e sua forma de observar as coisas, onde ela mostra sua convicção em uma frase: “Eu acho que tudo tem significado na vida”.

Confira:

Marcelo de Assis: “Olhos Atentos”… Por que esse título para o EP?

Tuca Mei: É porquê o nome “Tuca” é de origem indígena e o seu significado é “Olhos Atentos”. Eu descobri isso mais tarde, porquê é um apelido meu, sempre foi, meu nome é Antônia, mas sempre fui chamada de “Tuca” pela minha família e amigos …

Marcelo de Assis: Mas é um belo nome …

Tuca Mei: Pois é (risos) só que eu acho ele muito sério. Mas o significado dele é lindo também: amiga inestimável! É linda também!

Marcelo de Assis: Você se apega ao significado dos nomes assim?

Tuca Mei: Eu me apego ao significado de tudo, Marcelo! (risos). Eu sou uma pessoa muito conectada com a sincronia das coisas. Eu acho que tudo tem significado na vida. Uma folha não cai em um lugar a toa. Ela tem inúmeros motivos para cair ali. Sou otimista mas buscando sempre essa sincronia da vida que me leva para os caminhos e eu vou indo … E a música foi um caminho que foi fluindo, que fui permitindo e eu acho que Olhos Atentos tem a ver com esse meu lado de perceber algumas coisas com uma canção mais específica. É a canção de olhar os detalhes, das coisas que não são vistas. Por isso que gostei de Olhos Atentos porquê todas as músicas falam de relacionamentos que tive, todas as experiências que tive. Era só eu comigo mesma, com meu olhar sobre as coisas. O que passa dentro da gente, as vezes, pode representar várias coisas, por isso que eu quis intitular Olhos Atentos, porquê simboliza muito o conjunto das músicas e me representa como indivíduo.

Marcelo de Assis: E essa forma natural de observação, até como definição para o nome do álbum, também é uma resposta de como você entrou na música, até porquê você se espelhou em sua irmã mais velha. Essa observação já não começou aí?

Tuca Mei: Sim, porquê quando eu era criança eu era meio “muda” (risos). A minha irmã era muito agitada e muito falante. Eu era muito quieta e observadora, então, eu observava as pessoas, as coisas e a minha irmã literalmente me introduziu em tudo na arte: me ensinou as primeiras formas geométricas, estrelas, triângulos, pintava comigo, fez piano clássico e depois entrei, ela fez dança e depois eu entrei, então, ela foi me introduzindo neste universo. A minha irmã é super artística também, mas nunca teve essa vontade de se dedicar como eu. Mas é curioso porquê ela me introduziu para muitas coisas e sempre fomos muito parceiras de vida, de alma, muito diferente uma da outra mas sempre nos complementamos muito bem. Então, a música para mim foi fundamental. Faço essa dedicatória a ela que me abriu as portas, né? A minha família, a minha vó que me cantava música para dormir, músicas folclóricas, tradições de família… Eu queria sempre transmitir a essência que eu carrego.

Marcelo de Assis: Ou seja, sua irmã não só te introduziu na música mas ela te despertou para algo que hoje você percebe que ama …

Tuca Mei: Ah sim, com certeza! E ela sempre me incentivou. Ela me disse: “Tuca, eu acho que você toca as pessoas com a sua música e você ainda não percebeu isso”. Porquê era uma época que eu cantava, tocava mas brincava. Sem esperar muito. Não tinha muitas ambições. E minha irmã me dizia: “Você confia que quem escutar a sua música vai saber o que você quer passar” …

Marcelo de Assis: Quando comecei a escutar seu álbum, gostei muito de “Farol”. Ouvi umas seis vezes …

Tuca Mei: É minha última composição antes de eu lançar o EP. Eu achei curioso você ter logo capitado Farol porquê é uma música realmente muito sensível. Compus ela em 1 hora e eu senti como se tivesse uma energia entrando no meu corpo, meio que envolve você e eu nem considero as músicas exatamente minhas – eu sempre considero elas como um presente – pra você ver que eu não tenho apego. As vezes colocamos muito apego nas coisas. É deixar a história dos outros entrarem na música e fazer sentido de diferentes formas para elas …

 

 

Eu sou uma pessoa muito conectada com a sincronia das coisas. Eu acho que tudo tem significado na vida. Uma folha não cai em um lugar a toa. Ela tem inúmeros motivos para cair ali. Sou otimista mas buscando sempre essa sincronia da vida que me leva para os caminhos e eu vou indo …”

 

 

 

Marcelo de Assis: Este álbum tem um contexto literário de coisas bem profundas. Esse tipo de composição a qual você olha para dentro de si e através de sua escrita procura explicar uma história, sobre algo que você viveu, será uma temática em sua carreira?

Tuca Mei: Eu acho que sim … As pessoas que me conhecem sempre comentavam que eu era uma contadora de histórias, por lembrar de detalhes, sensações, olhares e as pessoas ficavam muito impressionadas como eu conseguia lembrar de tantos detalhes. E quando fui produzir o EP, um dos produtores notou isso: “Tuca, você é uma contada de histórias! Suas músicas são histórias e eu consigo visualizar quando escuto elas”. Sempre será uma temática! Minhas histórias e histórias de outras pessoas, inspirações que transformo em coisas bonitas, tristes, mas que toque quem escute. Que despertem alguma coisa!

Marcelo de Assis: É mais fácil falar da alegria ou da dor?

Tuca Mei: É como aquela famosa frase: (cantando) “Mas pra fazer um samba com beleza / É preciso um bocado de tristeza, É preciso …” (Samba da Benção, 1966 – Vinicius de MoraesGravadora Elenco). Pra fazer um samba a gente precisa de muita tristeza (risos).

Marcelo de Assis: Essa é a parte boa do jornalismo musical, quando a artista canta na entrevista …

Tuca Mei: (Risos). Mas eu acho que eu tenho facilidade para compor coisas tristes, porque eu usava a música para transformar sentimentos ruins em coisas boas…

Marcelo de Assis: Uma vávula de escape?

Tuca Mei: Exatamente isso! Pra liberar, para não guardar no peito? Eu usava muito isso para colocar para fora, alguns sentimentos que eu não conseguia explicar, porque sempre fui muito alegre e as pessoas não entendiam muito porquê eu fazia músicas tão tristes. Mas era uma sensação que não cabia em mim. Eu queria transformar aquilo em uma coisa bonita. Mas ultimamente ando fazendo coisas muito mais alegres. Mesmo na tristeza eu trago uma leveza. Eu sinto isso assim.

Marcelo de Assis: Em suas referências musicais imediatas, existem nomes como Marisa Monte, Lady Gaga e Lana Del Rey. Como você define sua sonoridade, trabalhando elas em suas composições?

Tuca Mei: Eu tenho muitas, muitas referências, mas esses traços da sonoridade é porque eu tive muita influência de música clássica e musicais. Eu tenho uma noção de que a música precisa de um clímax, de um movimento. Eu sempre observei as trilhas sonoras nos filmes. A própria questão da Lana Del Rey é porquê a música dela tem uma coisa vintage que lembra algo meio atemporal, que você pode ouvir em qualquer situação, qualquer época, que você vai se identificar e fará sentido para você. Mas eu introduzi muitos elementos de musicais, de trilha sonora e fiz um estudo disso. Foi mais inconsciente, intuitivo do que teórico.

Marcelo de Assis: E como foi a concepção e produção do EP “Olhos Atentos”?

Tuca Mei: Quando eu produzo uma música, eu sou muito “redonda” nela: eu já venho com a composição praticamente pronta. Eu cheguei no estúdio com as músicas prontas e pedi aos produtores: “Eu quero que vocês encontrem o potencial da música!”. Eu sabia que a música tinha um potencial que ainda não foi alcançado. Ali fomos encontrando o potencial de cada música e respeitando o processo delas. Como elas são de diferentes épocas da minha vida – minha primeira composição foi com 14 anos e a Farol, foi com 20 anos – então foram processos diferentes.

Marcelo de Assis: Acho que teremos um álbum acústico no futuro …

Tuca Mei: Pois é. Estamos pensando nessa questão acústica, como as pessoas gostam de ouvir as minhas canções na forma acústica, toda hora alguém pede para eu puxar um violão … (risos).

Marcelo de Assis: E shows, apresentações… Como você está se planejando?

Tuca Mei: Estou no começo do processo, então organizando agendas, divulgando meu trabalho. Como sou iniciante, eu não tinha uma estrutura de apoio. Hoje eu tenho. Foi tudo muito espontâneo. Quando fui para a produção no estúdio, eu nem estava pensando muito na questão de carreira. Só queria produzir as música para tê-las e no processo fomos percebendo essa possibilidade. O próprio lançamento do EP foi um teste. É muito legal quando as pessoas vem até você e falam das músicas que ouviram. Agora, quanto aos shows é um processo de construção.

Marcelo de Assis: Com quem você dividiria o palco?

Tuca Mei: Eu nunca pensei nisso, olha que engraçado! …. Dividiria o palco com Francisco El Hombre, talvez com Caetano… vamos sonhar grande né? (risos). A Duda Beat, o som dela é muito interessante … Marisa Monte também, quem sabe … (risos).

Marcelo de Assis: Você está tatuada na capa. Como surgiu essa ideia?

Tuca Mei: Eu desenvolvi a capa através de um primo meu de Minas Gerais, que é fotógrafo – mantive tudo em família, está percebendo né? (risos) – e eu queria que fosse uma coisa muito pessoal. Pessoas que tiveram contato comigo na fase da infância, que fizeram parte desses meus momentos. E quando tiramos as fotos, desenvolvendo todo esse processo, meu primo percebeu e me perguntou: “O que você sente que esse EP te representa?” Eu acho que representa muito esse lado da vulnerabilidade, de estar com o coração aberto para tudo e pensamos muito nessa ideia de pintar meu corpo com o coração no meio com várias flores saindo dele. O florescer dessa vulnerabilidade, se mostrar ao mundo quem você é o que não é fácil. As pessoas colocam máscaras, te tratam de diferentes formas e a pintura fez todo sentido e para o que está sendo dito no EP.

Marcelo de Assis: Como artista independente, qual sua análise sobre o mercado musical nos dias de hoje?

Tuca Mei: É um mercado que não é fácil, porque você necessita de muito mais trabalho do que um artista que está em uma gravadora, que possui investimento ao mesmo tempo que você tem muito mais liberdade para a sua criatividade. Só que seria interessante ter pessoas competentes para te orientar eu busquei isso. Uma equipe de apoio para me ajudar a desenvolver as minhas ideias e que se mostrem viáveis para esse mundo, para que as pessoas consumam, porque infelizmente para quem quer viver de música, as pessoas precisam consumir. Não adianta fazer uma coisa linda, criativa, mas que não caiba na realidade do nosso mundo. O mercado independente tem essa coisa boa mas tem seus desafios.

Marcelo de Assis: O céu é o limite. Em termos de carreira, o que é o céu para você?

Tuca Mei: O céu? (pensativa) Eu acho que é um show com muitas pessoas cantando comigo. Eu tenho sempre essa visualização. Isso seria o céu para mim. A minha música seguir para lugares distantes …

Marcelo de Assis: Tuca por Tuca!

Tuca Mei: Espontânea! Sou espontânea!

É jornalista e pesquisador musical. Cobre shows nacionais e internacionais e já entrevistou bastante gente interessante do Brasil e do mundo. Foi vencedor do Prêmio TopBlog Brasil em 2010 na categoria "Música"e foi membro do Grammy Latino.