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A jovem cantora Tuca Mei, de 23 anos, concedeu uma entrevista exclusiva ao The Music Journal Brazil para falar sobre o seu álbum-début, o EP Olhos Atentos que chega ao mercado através da Tuaregue, com distribuição da Tratore, com 5 músicas que são relatos poéticos de experiências vividas pela artista.




Tuca também falou sobre o inicio de sua carreira, a concepção deste álbum que foi lançado em setembro de 2018, além de suas inspirações para compor e sua forma de observar as coisas, onde ela mostra sua convicção em uma frase: “Eu acho que tudo tem significado na vida”.

Confira:

Marcelo de Assis: “Olhos Atentos”… Por que esse título para o EP?

Tuca Mei: É porquê o nome “Tuca” é de origem indígena e o seu significado é “Olhos Atentos”. Eu descobri isso mais tarde, porquê é um apelido meu, sempre foi, meu nome é Antônia, mas sempre fui chamada de “Tuca” pela minha família e amigos …

Marcelo de Assis: Mas é um belo nome …

Tuca Mei: Pois é (risos) só que eu acho ele muito sério. Mas o significado dele é lindo também: amiga inestimável! É linda também!

Marcelo de Assis: Você se apega ao significado dos nomes assim?

Tuca Mei: Eu me apego ao significado de tudo, Marcelo! (risos). Eu sou uma pessoa muito conectada com a sincronia das coisas. Eu acho que tudo tem significado na vida. Uma folha não cai em um lugar a toa. Ela tem inúmeros motivos para cair ali. Sou otimista mas buscando sempre essa sincronia da vida que me leva para os caminhos e eu vou indo … E a música foi um caminho que foi fluindo, que fui permitindo e eu acho que Olhos Atentos tem a ver com esse meu lado de perceber algumas coisas com uma canção mais específica. É a canção de olhar os detalhes, das coisas que não são vistas. Por isso que gostei de Olhos Atentos porquê todas as músicas falam de relacionamentos que tive, todas as experiências que tive. Era só eu comigo mesma, com meu olhar sobre as coisas. O que passa dentro da gente, as vezes, pode representar várias coisas, por isso que eu quis intitular Olhos Atentos, porquê simboliza muito o conjunto das músicas e me representa como indivíduo.

Marcelo de Assis: E essa forma natural de observação, até como definição para o nome do álbum, também é uma resposta de como você entrou na música, até porquê você se espelhou em sua irmã mais velha. Essa observação já não começou aí?

Tuca Mei: Sim, porquê quando eu era criança eu era meio “muda” (risos). A minha irmã era muito agitada e muito falante. Eu era muito quieta e observadora, então, eu observava as pessoas, as coisas e a minha irmã literalmente me introduziu em tudo na arte: me ensinou as primeiras formas geométricas, estrelas, triângulos, pintava comigo, fez piano clássico e depois entrei, ela fez dança e depois eu entrei, então, ela foi me introduzindo neste universo. A minha irmã é super artística também, mas nunca teve essa vontade de se dedicar como eu. Mas é curioso porquê ela me introduziu para muitas coisas e sempre fomos muito parceiras de vida, de alma, muito diferente uma da outra mas sempre nos complementamos muito bem. Então, a música para mim foi fundamental. Faço essa dedicatória a ela que me abriu as portas, né? A minha família, a minha vó que me cantava música para dormir, músicas folclóricas, tradições de família… Eu queria sempre transmitir a essência que eu carrego.

Marcelo de Assis: Ou seja, sua irmã não só te introduziu na música mas ela te despertou para algo que hoje você percebe que ama …

Tuca Mei: Ah sim, com certeza! E ela sempre me incentivou. Ela me disse: “Tuca, eu acho que você toca as pessoas com a sua música e você ainda não percebeu isso”. Porquê era uma época que eu cantava, tocava mas brincava. Sem esperar muito. Não tinha muitas ambições. E minha irmã me dizia: “Você confia que quem escutar a sua música vai saber o que você quer passar” …

Marcelo de Assis: Quando comecei a escutar seu álbum, gostei muito de “Farol”. Ouvi umas seis vezes …

Tuca Mei: É minha última composição antes de eu lançar o EP. Eu achei curioso você ter logo capitado Farol porquê é uma música realmente muito sensível. Compus ela em 1 hora e eu senti como se tivesse uma energia entrando no meu corpo, meio que envolve você e eu nem considero as músicas exatamente minhas – eu sempre considero elas como um presente – pra você ver que eu não tenho apego. As vezes colocamos muito apego nas coisas. É deixar a história dos outros entrarem na música e fazer sentido de diferentes formas para elas …

 

 

Eu sou uma pessoa muito conectada com a sincronia das coisas. Eu acho que tudo tem significado na vida. Uma folha não cai em um lugar a toa. Ela tem inúmeros motivos para cair ali. Sou otimista mas buscando sempre essa sincronia da vida que me leva para os caminhos e eu vou indo …”

 

 

 

Marcelo de Assis: Este álbum tem um contexto literário de coisas bem profundas. Esse tipo de composição a qual você olha para dentro de si e através de sua escrita procura explicar uma história, sobre algo que você viveu, será uma temática em sua carreira?

Tuca Mei: Eu acho que sim … As pessoas que me conhecem sempre comentavam que eu era uma contadora de histórias, por lembrar de detalhes, sensações, olhares e as pessoas ficavam muito impressionadas como eu conseguia lembrar de tantos detalhes. E quando fui produzir o EP, um dos produtores notou isso: “Tuca, você é uma contada de histórias! Suas músicas são histórias e eu consigo visualizar quando escuto elas”. Sempre será uma temática! Minhas histórias e histórias de outras pessoas, inspirações que transformo em coisas bonitas, tristes, mas que toque quem escute. Que despertem alguma coisa!

Marcelo de Assis: É mais fácil falar da alegria ou da dor?

Tuca Mei: É como aquela famosa frase: (cantando) “Mas pra fazer um samba com beleza / É preciso um bocado de tristeza, É preciso …” (Samba da Benção, 1966 – Vinicius de MoraesGravadora Elenco). Pra fazer um samba a gente precisa de muita tristeza (risos).

Marcelo de Assis: Essa é a parte boa do jornalismo musical, quando a artista canta na entrevista …

Tuca Mei: (Risos). Mas eu acho que eu tenho facilidade para compor coisas tristes, porque eu usava a música para transformar sentimentos ruins em coisas boas…

Marcelo de Assis: Uma vávula de escape?

Tuca Mei: Exatamente isso! Pra liberar, para não guardar no peito? Eu usava muito isso para colocar para fora, alguns sentimentos que eu não conseguia explicar, porque sempre fui muito alegre e as pessoas não entendiam muito porquê eu fazia músicas tão tristes. Mas era uma sensação que não cabia em mim. Eu queria transformar aquilo em uma coisa bonita. Mas ultimamente ando fazendo coisas muito mais alegres. Mesmo na tristeza eu trago uma leveza. Eu sinto isso assim.

Marcelo de Assis: Em suas referências musicais imediatas, existem nomes como Marisa Monte, Lady Gaga e Lana Del Rey. Como você define sua sonoridade, trabalhando elas em suas composições?

Tuca Mei: Eu tenho muitas, muitas referências, mas esses traços da sonoridade é porque eu tive muita influência de música clássica e musicais. Eu tenho uma noção de que a música precisa de um clímax, de um movimento. Eu sempre observei as trilhas sonoras nos filmes. A própria questão da Lana Del Rey é porquê a música dela tem uma coisa vintage que lembra algo meio atemporal, que você pode ouvir em qualquer situação, qualquer época, que você vai se identificar e fará sentido para você. Mas eu introduzi muitos elementos de musicais, de trilha sonora e fiz um estudo disso. Foi mais inconsciente, intuitivo do que teórico.

Marcelo de Assis: E como foi a concepção e produção do EP “Olhos Atentos”?

Tuca Mei: Quando eu produzo uma música, eu sou muito “redonda” nela: eu já venho com a composição praticamente pronta. Eu cheguei no estúdio com as músicas prontas e pedi aos produtores: “Eu quero que vocês encontrem o potencial da música!”. Eu sabia que a música tinha um potencial que ainda não foi alcançado. Ali fomos encontrando o potencial de cada música e respeitando o processo delas. Como elas são de diferentes épocas da minha vida – minha primeira composição foi com 14 anos e a Farol, foi com 20 anos – então foram processos diferentes.

Marcelo de Assis: Acho que teremos um álbum acústico no futuro …

Tuca Mei: Pois é. Estamos pensando nessa questão acústica, como as pessoas gostam de ouvir as minhas canções na forma acústica, toda hora alguém pede para eu puxar um violão … (risos).

Marcelo de Assis: E shows, apresentações… Como você está se planejando?

Tuca Mei: Estou no começo do processo, então organizando agendas, divulgando meu trabalho. Como sou iniciante, eu não tinha uma estrutura de apoio. Hoje eu tenho. Foi tudo muito espontâneo. Quando fui para a produção no estúdio, eu nem estava pensando muito na questão de carreira. Só queria produzir as música para tê-las e no processo fomos percebendo essa possibilidade. O próprio lançamento do EP foi um teste. É muito legal quando as pessoas vem até você e falam das músicas que ouviram. Agora, quanto aos shows é um processo de construção.

Marcelo de Assis: Com quem você dividiria o palco?

Tuca Mei: Eu nunca pensei nisso, olha que engraçado! …. Dividiria o palco com Francisco El Hombre, talvez com Caetano… vamos sonhar grande né? (risos). A Duda Beat, o som dela é muito interessante … Marisa Monte também, quem sabe … (risos).

Marcelo de Assis: Você está tatuada na capa. Como surgiu essa ideia?

Tuca Mei: Eu desenvolvi a capa através de um primo meu de Minas Gerais, que é fotógrafo – mantive tudo em família, está percebendo né? (risos) – e eu queria que fosse uma coisa muito pessoal. Pessoas que tiveram contato comigo na fase da infância, que fizeram parte desses meus momentos. E quando tiramos as fotos, desenvolvendo todo esse processo, meu primo percebeu e me perguntou: “O que você sente que esse EP te representa?” Eu acho que representa muito esse lado da vulnerabilidade, de estar com o coração aberto para tudo e pensamos muito nessa ideia de pintar meu corpo com o coração no meio com várias flores saindo dele. O florescer dessa vulnerabilidade, se mostrar ao mundo quem você é o que não é fácil. As pessoas colocam máscaras, te tratam de diferentes formas e a pintura fez todo sentido e para o que está sendo dito no EP.

Marcelo de Assis: Como artista independente, qual sua análise sobre o mercado musical nos dias de hoje?

Tuca Mei: É um mercado que não é fácil, porque você necessita de muito mais trabalho do que um artista que está em uma gravadora, que possui investimento ao mesmo tempo que você tem muito mais liberdade para a sua criatividade. Só que seria interessante ter pessoas competentes para te orientar eu busquei isso. Uma equipe de apoio para me ajudar a desenvolver as minhas ideias e que se mostrem viáveis para esse mundo, para que as pessoas consumam, porque infelizmente para quem quer viver de música, as pessoas precisam consumir. Não adianta fazer uma coisa linda, criativa, mas que não caiba na realidade do nosso mundo. O mercado independente tem essa coisa boa mas tem seus desafios.

Marcelo de Assis: O céu é o limite. Em termos de carreira, o que é o céu para você?

Tuca Mei: O céu? (pensativa) Eu acho que é um show com muitas pessoas cantando comigo. Eu tenho sempre essa visualização. Isso seria o céu para mim. A minha música seguir para lugares distantes …

Marcelo de Assis: Tuca por Tuca!

Tuca Mei: Espontânea! Sou espontânea!

É jornalista e pesquisador musical. Cobre shows nacionais e internacionais e já entrevistou bastante gente interessante do Brasil e do mundo. Foi vencedor do Prêmio TopBlog Brasil em 2010 na categoria "Música"e foi membro do Grammy Latino.

ENTREVISTAS

Entrevista com Sérgio Affonso, presidente da Warner: “O digital democratizou a música”

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Entrevista com Sérgio Affonso, presidente da Warner: "O digital democratizou a música"
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Ele está a frente da empresa que conta com um cast que está na vanguarda do pop atual como Anitta, Ludmilla e IZA. Sérgio Affonso, presidente da Warner Music Brasil iniciou sua bem sucedida carreira na indústria musical ainda nos anos 1980 na saudosa EMI-Odeon. Também passou rapidamente pela gravadora Copacabana, entrando para a equipe da WEA na mesma década, onde foi diretor de marketing internacional.

Com excelentes resultados na companhia pavimentou o caminho para que Affonso fosse nomeado presidente da filial mexicana em 2001, por onde permaneceu durante um período de seis anos. Já em 2006, ele retorna ao Brasil para assumir a presidência da Warner Music, onde segue no posto até hoje.

Com grande experiência no mercado musical dos anos 1980 e no novo mercado, onde as gravadoras trabalham em sistema 360º e proficiente na era digital da música, Sergio Affonso concedeu uma entrevista exclusiva ao TMJ para falar sobre a fase atual da Warner, os artistas que formam seu quadro e sobre os valores do funk e do pop brasileiro, deixando claro que não há uma preferência musical predileta: “Eu quero trabalhar com boa música”.

Confira:

Entrevista com Sérgio Affonso, presidente da Warner: "O digital democratizou a música"

Marcelo de Assis: Como foi o ano de 2019 para a Warner Music Brasil?

Sérgio Affonso: O ano de 2019 foi muito bom para a gente. Conseguimos alguns resultados até de certa forma imprevisíveis, para uma companhia como a Warner ter a música sertaneja mais tocada no Brasil quando eu tenho apenas três artistas sertanejos na companhia: Paula Mattos, Day & Lara e João Gustavo & Murilo. Então, foi um ano muito bom para a gente, terminamos o ano muito bem em posicionamento de charts e os artistas novos como foi o caso da Giulia Be, do PK, da consolidação da carreira da Pocah, isso sem falar de Anitta, IZA, Ludmilla, Ferrugem que são os grandes nomes, mas foi um ano muito bom para nós.

Marcelo de Assis: Eu vejo que a Warner, já a alguns anos, aposta bastante na música pop. Isso é notável no mercado. Será esse o caminho a ser seguido pela companhia nos próximos anos ou haverá a possibilidade de se abrir um espaço maior para outros gêneros?

Sérgio Affonso: Olha Marcelo, nunca houve da minha parte, uma concentração em apenas um gênero musical. Na verdade, existe um dado que é importante se destacar, que quando começamos a trabalhar com o funk, acredito que fomos a gravadora das majors que mais investiu no gênero, o funk não era considerado pop, pelo contrário, era meio maldito até. E aí o funk foi crescendo tanto que virou pop. Eu não tenho uma preferência por um segmento musical. Houve essa coincidência, mas sou uma companhia que tenho outros gêneros musicais como o Papatinho, Miranda, o Suel que é um sambista, o Pedro Sampaio que é um DJ do funk, do pop, estou lançado duas artistas novas agora que são uma preciosidade, dentro de um segmento pop, uma mais pop no sentido da palavra, a outra mais sofisticada, mais adulta que é a Samantha Machado e Elana Dara, que é uma artista incrível. Então eu tenho todos os segmentos dentro da companhia, não tenho nenhuma definição do tipo “só quero trabalhar com esse segmento”. Para mim, eu quero trabalhar com boa música. As vezes, nem sempre é possível, colocamos algumas coisas no mercado que muita gente não curte, mas são expressões autênticas de quem realiza seu trabalho. Mas eu quero trabalhar com música e não tenho um segmento direcionado.

 

 

Eu vejo isso como muito positivo isso, nada que atrapalhe a música e nada que impeça que o funk continue crescendo – Sérgio Affonso, sobre o atual funk brasileiro.

 

 

 

Marcelo de Assis: a Anitta se consolidou no mercado brasileiro e está muito bem no mercado internacional. Qual foi a fórmula para esse trabalho artístico ter uma ascensão, do artista que era do funk e migrou para o pop? Em outras palavras, em que meios a gravadora consegue colaborar para que o artista tenha essa ascensão?

Sérgio Affonso: Ah essa pergunta é complicada! Primeiro de tudo, o que sempre digo, no caso da Anitta, pela obstinação, o foco que ela tem, é um caso que deverá ser estudado, porque, desde a primeira reunião que tive com ela, ela falou tudo o que ela queria e tudo o que ela queria, eu diria que 99% está acontecendo. Uma artista absolutamente focada, trabalha como poucas pessoas eu conheci na vida, então ela tem foco, obstinação, muita força de trabalho e inteligência. A gravadora entrou apoiando, no que era possível, tudo o que a Anitta pleiteava com a gente. Obviamente, nem tudo é possível mas sempre apoiamos ela e sempre tentamos dar o retorno a qual nos propormos: de alavancar a carreira do artista, de ajudar a fazer sucesso, mostrar a música do artista para um número maior de pessoas. E foi o que fizemos desde o começo, todo o suporte financeiro, de equipe, e os resultados têm acontecido. A Anitta realmente merece. A carreira dela está realmente deslanchando lá fora, as coisas estão acontecendo e estamos muito felizes. Agora, nós temos outros artistas que estão em uma performance que temos que reconhecer que são espetaculares como a IZA, o ano passado foi muito da Ludmilla. Não é fácil: diretor de marketing, técnico de futebol e médico, já dizia minha vó, todo mundo quer ser, todo mundo quer saber. Então muitas vezes as ideias se conflitam, há divergências, mas temos conseguido, graças a Deus, ter uma compreensão dos nossos artistas e da equipe com a qual trabalho, tocar para frente e ver os resultados que estamos alcançando.

Entrevista com Sérgio Affonso, presidente da Warner: "O digital democratizou a música"

Marcelo de Assis: O mercado atual não dá para comparar com as décadas de 1980 e 1990 porque mudou muita coisa. O que se percebe hoje é que esses artistas novos que têm uma potencialidade artística muito grande, parece que encontram um caminho mais rápido de se criar uma conexão com artistas estrangeiros. A Ludmilla fez isso, a Anitta também fez isso, a Pocah fez turnê internacional e há muitos anos, esse intercâmbio não era algo tão rápido. Como você analisa essas mudanças?

Sérgio Affonso: Eu participei disso tudo há muitas décadas e realmente a dificuldade era enorme, porque falamos um idioma que parece meio “exótico” e que nem sempre os artistas internacionais conseguem cantar facilmente e não haviam as ferramentas que existem hoje. A ferramenta digital, a internet, os serviços de streaming universalizaram a música. Hoje, uma música tem uma chance maior de chegar lá fora muito mais rápido do que antigamente. Então eu acho que a internet e os serviços digitais democratizaram essa possibilidade. Pode haver um cara, nesse momento, lá no Curdistão, ouvindo uma música da Anitta, da Ludmilla ou do Ferrugem. Eu por exemplo adoro música estranha. Se você olhar minha playlist, só tenho música árabe, música do Marrocos, música indiana, porque eu gosto de descobrir o que está rolando. Então, eu acho que isso deu uma abertura muito grande para música. Mas tem outra coisa: depois da Bossa Nova, nós colocamos uma outra música altamente dançante e contagiante, que é o funk. Muita gente no Brasil, execra, fala mal, tem muita coisa ruim mesmo. Tem coisas que doem no coração, mas é uma música para dançar, não é uma música para filosofar. E isso ajuda muito porque, o público em geral, que consome música hoje no mundo inteiro, é um público muito jovem. Então está interessado em se divertir e eu acho que tudo isso ajudou bastante na abertura para esses artistas. Esses artistas da nova geração, a IZA, Ludmilla e Anitta já vivenciaram isso que estou falando. Eles já nasceram no meio dessa modificação do mercado, dessa abertura digital. Um dos artistas que eu amava muito, com quem trabalhei, o Gonzaguinha (1945-1991), por exemplo, ele nunca teve discussão comigo sobre carreira internacional. Porque era quase impossível. Acontecia uma turnê aqui e ali e era tudo. E hoje não, a Ludmilla, que tem 24, já chegou nesse mercado. Pedro Sampaio, estourou esse problema do coronavírus, no dia seguinte ele já tinha uma música ensinando a lavar as mãos. Eles estão nesse pique que é muito veloz, muito rápido, não dá para acompanhar não.

Marcelo de Assis: Muitas pessoas me questionam o funk a partir de uma herança cultural. Bem sabemos, que o funk, inicialmente, começou nos anos 1960 nos EUA. E certa vez, entrevistei o Caetano Veloso que explicou que essa batida do funk daqui era derivada de um ritmo de Miami, chamado Miami Beat Sound. Apresentar o funk tal qual como ele é hoje, um produto pop, não cria um distanciamento da referência histórica que é o funk norte-americano, de sua construção melódica?

Sérgio Affonso: O funk carioca, de onde tudo começou, tem a ver com esse Miami Beat Sound e foi evoluindo. No meu entendimento, o funk é uma música legítima nossa. Eu trabalhei com muito baile funk no Bangu, no Magnata, enfim, em vários clubes aqui no Rio de Janeiro. Naquela época, eu fazia promoção com o Furacão 2000, o DJ Marlboro, nós víamos que naquela época as pessoas, da forma que começa para mim, como eu vivi, eu presenciei 5 mil pessoas no baile funk, em um sábado à noite, sem ar-condicionado, sem nada, 60 graus naquele lugar, pessoas dançando e fazendo as suas versões com letras em cima de uma música de sucesso internacional. Eles inventavam a letra. A música Bette Davis Eyes da Kim Carnes que ela falava “she’ll unease you” e como as pessoas não sabiam dizer isso, falavam “Seu Anísio” e acabava virando o “Melô do Seu Anisio”. Começou com essa brincadeira, foram aparecendo os MC’s fazendo música nova e foi se transformando, também no funk de São Paulo, Nordeste e outras derivações. Eu vejo isso como muito positivo isso, nada que atrapalhe a música e nada que impeça que o funk continue crescendo.

 

Anitta é um caso que deverá ser estudado, porque, desde a primeira reunião que tive com ela, ela falou tudo o que ela queria e eu diria que 99% está acontecendo.

 

 

 

Marcelo de Assis: Eu acompanho muitos artistas novos que não estão vinculados à uma gravadora, é o sonho de muitos artistas apesar de toda essa democratização que existe na internet, como companhias independentes – essas empresas sempre existiram. Qual o caminho para esses novos artistas, que por vezes muito talentosos, porém anônimos, conseguirem um lugar ao Sol? Mais diretamente: como a Warner enxergaria esses artistas hoje e conseguiria capitaneá-los para a empresa?

Sérgio Affonso: O que o artista tem que fazer, primeiro de tudo, com essa democratização da internet, é fazer um vídeo com o seu próprio smartphone, cantando e subir ele no YouTube ou Instagram e apresentar para as pessoas, porque acaba chegando para a gente. E outra coisa, é buscar o contato com a gravadora mesmo. Eu sou mais do que feliz em receber esse material e procuro ouvir o máximo que posso de tudo.

Marcelo de Assis: Sergio, eu vejo que as outras gravadoras lançaram lojas com seus produtos. A Warner vai entrar nesse mercado?

Sérgio Affonso: Nós temos uma operação muito pequena de material para colecionáveis, mas a gente ainda vê um grande mercado no Brasil para isso. Eu não tenho, nesse momento, nenhum plano de ter uma loja. Estou trabalhando apenas nessa parte do material colecionável, que atende pedidos de fãs.

Eu vejo isso como muito positivo isso, nada que atrapalhe a música e nada que impeça que o funk continue crescendo.

Marcelo de Assis: Nós do TMJ sempre fazemos matérias de produtos que, por vezes, não são comercializados no Brasil e são distribuídos internacionalmente. E quando os artistas internacionais lançam um álbum com vários formatos, não chega por aqui. Não somos um mercado para esses produtos?

Sérgio Affonso: Marcelo, o que você está falando é parcialmente verdade. Nós lançamos digitalmente tudo o que a companhia lança. Hoje, quando sobe uma música nas plataformas, geralmente ele está liberado para o mundo inteiro, a não ser que haja algumas restrições contratuais que determinados artistas têm. Por exemplo, existe uma artista “A” onde tem uma parte do mundo que ela não pode ser incluída. Fora isso, 80% do nosso catálogo está disponível integralmente. Agora, para o formato físico, o mercado praticamente desapareceu e quem define o que será lançado neste formato aqui é a empresa com a qual nós temos um contrato de distribuição, no caso a RIMO, e eles que definem porque o risco de estoque são deles. Agora todos os artistas do catálogo antigo, a própria RIMO importou cerca de 10 mil discos de vinil de artistas de catálogo. O mercado físico diminuiu a níveis muito baixos, mas o digital está todo disponível. Não temos porque não lançá-los. A não ser aqueles que não existem contratos e, mesmo assim, nós estamos entrando em contato com a família para lançá-los.

Marcelo de Assis: Como que a Warner Music está enfrentando essa quarentena do coronavírus?

Sérgio Affonso: Eu trabalho mais de 30 anos na Warner e digo que estou encantado de ver como a companhia está preocupada com isso. Talvez tenhamos sido uma das primeiras gravadoras a entrar em home-office e temos reuniões atrás de reuniões e ninguém falou de faturamento comigo até agora. O que se fala é se as pessoas estão seguras, se estamos conseguindo tocar o barco, como estão os nossos artistas e empregados. A gravadora está jogando muito sério nesse ponto e vai levar tempo, na minha opinião, para superarmos tudo o que está acontecendo. Na minha opinião, tudo isso será superado 100% depois que aparecer uma vacina ou um tratamento eficaz.

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ENTREVISTAS

Entrevista com Eagle-Eye Cherry: “É um prazer encerrar esta turnê no Brasil”

O cantor e compositor sueco concedeu uma entrevista exclusiva ao The Music Journal Brazil onde fala de seu relacionamento com a irmã Neneh Cherry, de suas colaborações com artistas brasileiros e de sua alegria em retornar ao Brasil.

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Entrevista com Eagle-Eye Cherry: "É um prazer encerrar esta turnê no Brasil"
Nando Machado

O cantor Eagle-Eye Cherry esteve no Brasil pela primeira vez em 1999 quando se apresentou no extinto Free Jazz Festival e voltou diversas vezes nos anos seguintes para turnês concorridas e shows esgotados. Aqui no Brasil, construiu uma sólida base de fãs, impulsionada por sua participação em trilhas sonoras de novelas, filmes e séries como Smallville, Billy Elliot e E Sua Mãe Também, além de parcerias com artistas locais como Maria Gadú e Vanessa da Mata e o guitarrista Carlos Santana.

Entrevista com Eagle-Eye Cherry: "É um prazer encerrar esta turnê no Brasil"

Filho do prestigiado trompetista Don Cherry e da pintora Monika Moki, a música está na vida de Eagle-Eye desde o começo. Com sua irmã Neneh Cherry, hoje também cantora e musicista, viajou o mundo em turnês com o pai. Aos 12 anos, mudou-se para Nova York para estudar cinema e começou a trabalhar como ator, além de baterista para diversos grupos da cena local.

Pouco depois da morte do pai em 1995, retorna a Estocolmo para começar o compor o que seria o seu primeiro grande sucesso comercial, o álbum de estreia Desireless, que projetou o músico para uma carreira internacional, vendeu mais de 4 milhões de cópias e foi disco de platina nos Estados Unidos com sua roupagem pop aliada a elementos de folk e blues.

De lá para cá, foram mais cinco álbuns de estúdio e um disco ao vivo, gravado na icônica casa de shows Circo Voador no Rio de Janeiro, onde também se apresenta nesta nova turnê. Streets of You, seu último trabalho inédito, foi lançado em 2018.

Eagle-Eye Cherry, que chegou a gravar um novo clipe em São Paulo no último domingo (20) e se apresenta na capital paulistana no Cine Joia no dia 23 de outubro e no dia 24 no Circo Voador no Rio, concedeu uma entrevista exclusiva ao The Music Journal Brazil onde fala de seu relacionamento com a irmã Neneh Cherry, de suas colaborações com artistas brasileiros e de sua alegria em retornar ao Brasil para finalizar a sua atual turnê, onde ele diz que “é um prazer muito grande encerrar esse ciclo em lugar que eu gosto tanto”.

Confira a entrevista:

Entrevista com Eagle-Eye Cherry: "É um prazer encerrar esta turnê no Brasil"

Marcelo de Assis: Qual a sensação de retornar ao Brasil e sua expectativas para os seus shows aqui?

Eagle-Eye Cherry: Estou muito feliz em retornar ao Brasil. Estamos em turnê com este álbum há mais ou menos um ano e quando descobri que os últimos shows seriam aqui eu fiquei muito animado. Eu gosto muito do público brasileiro e é um prazer muito grande encerrar esse ciclo em lugar que eu gosto tanto.

Marcelo de Assis: Eagle, você esteve aqui pela primeira há exatos 20 anos. Ainda se recorda daquele momento quando se apresentou aqui?

Eagle-Eye Cherry: Sim, foi no Free Jazz Festival com o Roots e o Finley Quayle. Eu me lembro muito bem, porque cresci ouvindo música brasileira, então, eu sempre soube que viria ao Brasil em algum momento, só que eu acreditava que seria como turista e não como artista. Naná Vasconcelos, que era amigo do meu pai, tocaram juntos e isso se mantém com uma memória muito viva para mim.

Marcelo de Assis: Como você avalia sua carreira até hoje desde o lançamento de Desireless?

Eagle-Eye Cherry: Eu me senti um homem de sorte por ter essa carreira até hoje, porque quando eu comecei eu tive muitos sonhos e realizei muitos deles. Tive participações em programas de TV, coisas que eu não imagina que eu faria e acabei realizando, mas, acima disso, eu consegui criar uma música que resistisse à prova do tempo e eu sinto que consegui isso. É uma grande realização.

 

 

“Eu gosto muito do público brasileiro e é um prazer muito grande encerrar esse ciclo em lugar que eu gosto tanto.”

 

 

 

 

Marcelo de Assis: E você é irmão da Neneh Cherry. Como é a relação de vocês e como vocês discutem a música?

Eagle-Eye Cherry: Eu sou um grande amigo da minha irmã. É minha pessoa favorita. Eu não a vejo sempre, mas, temos uma relação ótima. Temos uma compreensão sobre o outro muito grande e quando estamos juntos, na maior parte do tempo, não falamos sobre trabalho. Cozinhamos e fazemos coisas juntos, mas eu sei que se eu precisar conversar sobre música com alguém, uma das pessoas que mais me entendem é minha irmã, então, me sinto confortável para falar com ela sobre qualquer coisa.

Marcelo de Assis: Você já trabalhou com artistas brasileiros como Maria Gadú e Vanessa da Mata. Como foi essas colaborações e o que elas agregaram em sua carreira?

Eagle-Eye Cherry: Tive uma colaboração com a Maria Gadú e quando estava pensando em fazer uma colaboração, eu descobri a voz dela que é uma coisa maravilhosa e acredito que a música foi para outro patamar e com a Vanessa da Mata, eu acabei descobrindo ela depois de uma colaboração com o Ben Harper, de quem eu sou muito fã e acredito que essas colaborações agregam muito e eu fiquei muito feliz com ambos os resultados.

Marcelo de Assis: Quem é o Eagle-Eye Cherry?

Eagle-Eye Cherry: Eu faço essa pergunta todos os dias quando eu acordo e me olho no espelho! (risos). E quando eu levo muito tempo em gravar um álbum e outro é porque eu ainda tenho dificuldade com essa parte de celebridade. Eu gosto muito de tocar, é tudo para mim, é como respirar, comer, algo vital. Mas ainda tenho essa dificuldade de estar muito exposto e as vezes faço pausas maiores na carreira. Tem esses dois Eagles: o cara que sobe no palco e outro que é uma pessoal normal, que prefere ficar longe das câmeras.

Marcelo de Assis: Música tem que ser a celebração da vida ….

Eagle-Eye Cherry: Sim! Exatamente!

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ENTREVISTAS

Entrevista com Lucas Lucco: “Guardo dentro de mim muitos sonhos.”

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Entrevista com Lucas Lucco: "Meu novo projeto é trazer uma proximidade com o público"
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O cantor e compositor Lucas Lucco lotou semana passada o Madalena Gastrobar, em Goiânia. Foram cerca de 500 pessoas no espaço para prestigiar uma estreia. Qual? Nada mais, nada menos, do que o novo projeto de Lucas, intitulado De Bar em Bar. Com a presença de amigos, fãs e da noiva, Lorena Carvalho, o cantor trouxe ao público 5 canções inéditas. São elas: Ex pegador, Rolo coisa e tal, Desnecessário, Sumiu do mapa, Boquinha de cerveja, Disney, além de trechos de seus sucessos.

Com muita animação, mas sem deixar o romantismo de lado, a novidade do novo trabalho irá rodar por diversos bares Brasil afora, sempre carregando consigo músicas inéditas para o público, além de enaltecer a cultura regional e as histórias dos povos pelo país.

Em uma entrevista exclusiva ao The Music Journal Brazil, Lucco falou mais sobre este projeto, sobre a turnê de A Origem e como ele analisa a carreira como um todo. Confira:

Entrevista com Lucas Lucco: "Meu novo projeto é trazer uma proximidade com o público"

Marcelo de Assis: Lucas, como nasceu a ideia de realizar este projeto “De Bar em Bar”?

Lucas Lucco: A ideia nasceu com o objetivo de reunir amigos e fãs em um clima agradável e descontraído, com intuito de celebrar as raízes da música popular brasileira, em especial o sertanejo.

Marcelo de Assis: O intuito deste novo projeto é reunir amigos e fãs. Ou seja, a nova série de shows seria algo mais intimista se comparado aos grandes shows?

Lucas Lucco: Não diria intimista, mas a ideia é trazer uma proximidade com o público, com palco menor, mais baixo e com a possibilidade de andança nas passarelas e no próprio balcão.

Marcelo de Assis: Você pretende usar esse encontro como uma label registrada. Como funcionará isto?

Lucas Lucco: A ideia é bem recente, mas pretendo tornar uma label registrada sim, com certeza.

Marcelo de Assis: Como tem sido a turnê de A Origem?

Lucas Lucco: Tem sido muito bacana, estamos rodando o Brasil todo, onde posso compartilhar com o público uma das minhas grandes paixões, que é o sertanejo, além da aproximação com os fãs, que são sempre muito fieis.

 

 

“É incrível, o balanço que faço é muito positivo. São anos de muito aprendizado, muito crescimento pessoal e profissional.”

 

Marcelo de Assis: Lucas, como você analisa sua carreira como um todo? Em outras palavras, como foi o processo de amadurecimento neste sentido?

Lucas Lucco: É incrível, o balanço que faço é muito positivo. São anos de muito aprendizado, muito crescimento pessoal e profissional. Tive a oportunidade de conhecer pessoas incríveis neste caminho, que fizerem e fazem toda a diferença na minha vida.

Marcelo de Assis: Quanto à música sertaneja, o que mudou desde o inicio de sua carreira?

Lucas Lucco: A música sertaneja sempre esteve em alta, temos artistas incríveis hoje em dia e isto só tem crescido. Acredito que o principal destaque atualmente seja a ascensão das duplas femininas, o feminejo veio com tudo!

Marcelo de Assis: Quais são seus planos para 2020?

Lucas Lucco: Ah, são muitos. Quero lançar novos projetos, músicas e trabalhar muito. Amo o que faço, de todo o coração.

Marcelo de Assis: A tônica de seu trabalho sempre foi o romantismo. Por que o sertanejo dialoga tanto com esse sentimento?

Lucas Lucco: Sim, eu sempre fui apaixonado por música sertaneja, sempre fui um cara romântico. Acho que temos o sertanejo moderno dialoga muito com este sentimento, e isto é incrível.

Marcelo de Assis: Luccas, tem algum sonho que você ainda não realizou?

Lucas Lucco: Sou um cara muito realizado, mas guardo dentro de mim muitos sonhos. Com fé e trabalho, espero
conseguí-los.

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