INTERNACIONAIS

Entrevistamos o cantor italiano Zucchero

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Com mais de três décadas de carreira e mais de 60 milhões de discos vendidos em todo o mundo, o cantor e compositor italiano Zucchero veio ao Brasil para apresentar a turnê de seu recente álbum Black Cat com shows marcados no Rio, São Paulo, Porto Alegre e Curitiba.

Suas composições, sempre direcionadas ao rock, dialogam com outros gêneros como o gospel, soul, blues e R&B. O cantor de 62 anos deixou impresso no mundo da música grandes sucessos que foram executados em rádios do mundo inteiro como Senza Una Donna (um dueto com Paul Young), Baila (Sexy Thing), My Love, Diamante, entre outros.

Creditado por diversas vezes como o Pai do Blues Italiano, Zucchero é um dos grandes expoentes da música italiana no século XX e que já contribuiu com outros grandes artistas de renome mundial como Eric Clapton, Jeff Back, Stevie Ray Vaughan, Brian May, Ray Charles, B.B. King, Bono, Peter Gabriel, Andrea Bocelli, além do saudoso e eterno amigo Luciano Pavarotti com quem idealizou a icônica série de concertos Pavarotti and Friends que aconteceu durante mais de uma década na cidade italiana de Modena.

Zucchero foi homenageado na Italia com a Ordem do Merito da República Italiana, além de ser indicado ao Grammy Awards e ter conquistado 6 certificações de platina pela IFPI européia.

Confira abaixo a entrevista exclusiva que o The Music Journal Brazil realizou com o artista em São Paulo:

Marcelo de Assis: Como foi a reação dos seus fãs no show que você realizou no Rio e o qual sua expectativa de sua apresentação aqui em São Paulo?

Zucchero: O show estava lotado e o que me agradou é que haviam mais brasileiros que italianos na platéia e isso foi muito bom. Havia uma vibração muito legal, especialmente com músicas mais agitadas, tanto que tive que repetir três músicas na apresentação.

 

“Temos que passar por cima do rótulo de que a música italiana só fala de amor, a música brasileira é Bossa Nova e a música espanhola é o flamenco”

 

Marcelo de Assis: Black Cat, o seu último trabalho de estúdio, é baseado em canções com blues e soul music. Como foi o processo criativo deste álbum?

Zucchero: Em 2014 eu fiz uma turnê que passou pela América do Norte e naquela ocasião eu viajei de sleeping bags, o que me possibilitou ver muito mais coisas do que se eu tivesse em um avião e com isso andei por espaços em plantações e me fez imaginar como era a vida na época da escravidão. E eu consegui imaginar esses escravos que ficavam tocando naquela época com o instrumentos que eles tinham, um violão improvisado, tambores e tudo isso me deu a ideia do som deste disco com uma música mais black.

Marcelo de Assis: Zucchero, como nasceu a parceria com Bono e Mark Knopfler na canção Streets of Sourrender?

Zucchero: Eu conheço o Bono desde 1992 e somos muito amigos. Temos um carinho pelo outro, já escrevemos músicas, participamos do Pavarotti and Friends e criamos uma elo. E todas as vezes que tenho uma música que é melodicamente interessante eu faço uma proposta para o Bono escrever a letra. E neste caso eu propus essa canção para ele. Passou um mês, Bono meio que sumiu neste intervalo, ele estava em Paris na época em que aconteceu aquele ataque ao Bataclan. E ele ficou inspirado para escrever a letra. O Mark Knopfler é meu amigo e ele quis colocar a guitarra dele na música e aí surgiu a colaboração.

Marcelo de Assis: Sobre o Pavarotti and Friends, que você sempre participou, qual foi o legado que a série de concertos deixou para o mundo?

Zucchero: A razão pela qual eu sou muito ligado ao Pavarotti and Friends e por ter participado de todas edições é que a série surgiu comigo e o Pavarotti. Escrevemos a canção Miserere e foi a primeira vez que um tenor estava cantando com um artista pop. Nós gravamos a música na cidade de Pesaro, onde também gravamos o vídeo e quando estávamos voltando da gravação, paramos em uma trattoria, que é um restaurante muito simples onde normalmente a mesa está decorada com uma toalha de papel amarela. Paramos para tomar um café naquela tarde e naquele momento eu tive uma ideia e falei ao Pavarotti: “Porque não fazemos um show onde eu me ocupo dos cantores de rock e pop e você da orquestra clássica?” E foi aí que nasceu a primeira edição em Modena! Chamamos o Sting, Brian May e Lucio Dalla, que são cantores claramente do pop, enquanto que o Pavarotti cuidou de toda a parte clássica. Foi, claro, uma iniciativa para a caridade, que deu a oportunidade de criar escolas para crianças em países com situação de guerra, teve 12 edições onde foram chamados artistas como Eric Clapton, Elton John, Stevie Wonder e, fundamentalmente, a ideia nasceu de uma tarde juntos …

Marcelo de Assis: … em uma tratoria!

Zucchero: Em uma tratoria! (risos)

Marcelo de Assis: quais são os artistas brasileiros que você  mais aprecia?

Zucchero: Djavan, que é uma pessoa extraordinária, Sergio Mendes, Marisa Monte, Carlinhos Brown, Toquinho, Gilberto Gil, Roberto Carlos que sempre foi muito famoso na Itália desde os anos 1970 e que é uma lenda no Brasil!

Marcelo de Assis: qual a mensagem que você deixaria para os seus fãs no Brasil?

Zucchero: A mensagem que deixo é que vocês devem ir além da música tradicional italiana, que é melódica, porque tem muito mais além disso. Existem ritmos diferentes, cantores que são poetas e também cantores novos, que fazem música de qualidade mas que não é daquele ritmo que normalmente as pessoas estão acostumadas, pois temos que passar por cima do rótulo de que a música italiana só fala de amor, a música brasileira é Bossa Nova e a música espanhola é o flamenco.

Marcelo de Assis: Grazie!

Zucchero: Obrigado, Marcelo!

É jornalista e pesquisador musical. Cobre shows nacionais e internacionais e já entrevistou bastante gente interessante do Brasil e do mundo. Foi vencedor do Prêmio TopBlog Brasil em 2010 na categoria "Música"e foi membro do Grammy Latino.