INTERNACIONAIS

Entrevista com Kiko Loureiro do Megadeth

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Kiko Loureiro, guitarrista do Megadeth nos concedeu uma entrevista exclusiva ao The Music Journal Brazil para falar sobre a sua entrada em uma das bandas mais emblemáticas do metal internacional e de sua experiência nessa nova fase de sua vida profissional.

Com shows no Brasil neste ano, o Megadeth apresentará em seu repertório, além de seus grandes sucessos, as novas composições de seu último trabalho de estúdio intitulado Dystopia, lançado em 2016.

Confira:

Marcelo de Assis:  O Megadeth vem ao Brasil neste ano e o que os fãs poderão esperar da banda nesses shows?

Kiko Loureiro: O repertório é diferente, o set do show é um pouco diferente, músicas diferentes e com certeza é uma ótima oportunidade de assistir o show do Megadeth que está mais afiado, estamos no final da turnê. São mais de 150 shows ao longo dos dois anos em divulgação do novo disco. Então, vale muito a pena ver o show e no Brasil ainda, melhor ainda, tocar perto de casa!

Marcelo de Assis: Aliás fazem 9 anos que vocês não retornam ao Rio. Deve ser um momento bem especial para os fãs!

Kiko Loureiro: Sim. Será uma oportunidade imperdível para a galera do Rio.

Marcelo de Assis: No momento que você recebeu a notícia que seria o guitarrista do Megadeth, como foi sua reação?

Kiko Loureiro: Ah cara… é muito louco! Sei lá! Porque, foi uma coisa assim: É o momento mais emocionante quando foi o primeiro contato do baixista David Eliefson: “Kiko, posso te ligar?”. Aí ja falei “putz”, eu já sabia que eles estavam procurando um guitarrista e foi aquela ansiedade, emoção e eu vou ter uma chance de agarrar essa oportunidade. Eu já estava nos EUA quase dois anos e eu sempre ficava pensando: “Será que eu fiz certo de ir para os EUA?”, país diferente, longe das coisas que você está acostumado… Eu sempre fui um cara muito viajado mas quando você vai para um país morar, é diferente né? Eu estava com aquelas minhas dúvidas, que todo mundo tem da vida, e aí teve esse telefonema. E a partir daquele momento foi mais uma coisa assim tipo “O que eu posso fazer para agarrar essa oportunidade?”. Então estava preparando para uma possível audição, mas na realidade nem houve essa audição. Eu tinha uma segurança que eu corresponderia ao nível que o Megadeth precisaria. Eu fui conquistando essa experiência ao longo dos anos, então, eu estava com uma certa segurança em certos aspectos, mas obviamente a decisão não era minha, não sabia se havia uma fila de guitarristas, tops ou famosos. Em termos profissionais sempre fui um cara bem dedicado pelo o que eu faço e com muita experiência com o Angra. Estudei muito o music business, da indústria em si e da profissão em si, não só do instrumento mas de tudo o que está em volta, o que você precisa ser para estar nessa indústria e viver nela. Viver de música.

 

“O convite do Megadeth foi ótimo para o momento, para se estar em uma banda totalmente americana e para uma projeção internacional”

 

Marcelo de Assis: Em algum momento pairou alguma dúvida sobre essa nova etapa profissional nos EUA?

Kiko Loureiro: É uma sensação de imigrante né? Você está longe de onde nasceu, de onde cresceu, tudo é diferente né? Uma coisa é viajar nas férias para os EUA, outra coisa é você estar lá, no dia-a-dia, é diferente. E essa sensação tem uns momentos do tipo “que demais, estou aqui!” E outros dias, não! Você pensa: “E se eu estivesse lá em casa, tomando café com a minha mãe”… coisa simples né? E acho que depende muito do momento da vida em que você se encontra. Eu tenho uma filha de um pouco mais de 1 ano e nessas horas você pensa que está em um país estranho, sua filha não está nem falando português… E mais por isso. Mas quando fui para os EUA eu queria dar uma chacoalhada na carreira mesmo. Eu viajei muito para o exterior com o Angra e eu sabia que profissionalmente eu encaro as coisas. É um passo no escuro para você dar um passo maior. Mas o convite do Megadeth foi ótimo para o momento, para se estar em uma banda totalmente americana e para uma projeção internacional.

Marcelo de Assis: Como tem sido trabalhar com o Megadeth e como essa experiência tem agregado à sua carreira?

Kiko Loureiro: É muito aprendizado sim e com certeza eu sou outro músico, outro artista, depois de conviver aqui por 150 shows, sermos headliners de grandes festivais, de ver como funciona a equipe que são muitos profissionais como você pode imaginar, caras que trabalharam em bandas como Kiss, Aerosmith, Black Sabbath, Bruno Mars… A nossa equipe é formada de caras que estão neste nível. Então é aprendizado constante com a galera em geral. Tanto que montei uns cursos online para o Brasil sobre treino de guitarra e sobre o music business. (www.musicbusiness.com.br)

 

“O profissional tem que levar a sério a sua profissão, ter conhecimento, saber se posicionar e não esperar cair nada do céu”.

 

Marcelo de Assis: No álbum Dystopia, que é o último álbum do Megadeth, você tem três canções que compôs em parceria com Dave Mustaine. Como foram definidas essas parcerias e o processo de composição delas?

Kiko Loureiro: Quando conheci eles, fui direto ao estúdio. Eu comecei a relação com eles no estúdio. E foi assim, conhecendo os caras, não só o Mustaine, mas o produtor, o dono do estúdio. Estávamos no interior de Nashville, um ambiente novo para mim, porque Los Angeles é mais comospolita, internacional. Eu estava entrando na banda naquele momento e você não chega na casa de ninguém já dando pitaco na cor da parede da casa (risos). Mas eu dei algumas idéias que o Mustaine aceitou e acabou rolando essas parcerias. E foi super fantástico, porque para um cara novato ele foi super acolhedor. Tem outras ideias que também não foram usadas também, obviamente. Faz parte do processo criativo, aliàs, faz muito parte do processo criativo não ter medo de dar ideias, sabendo que a maior delas não serão usadas. Você não pode ter problema com isso. É delicado esse processo. É super delicado. É super passional e pessoal compor, mostrar o que você está fazendo.

Marcelo de Assis: Como você avalia o cenário do rock nacional nos dias de hoje?

Kiko Loureiro: Olha, serei bem sincero, nem vou conseguir opinar muito bem: acho que o rock, mundialmente, ele não está com a mesma força que ele já teve. Se você olhar as paradas de sucesso, você percebe que o rock não está tão presente. Até bandas que os caras chamam de rock, nem tem guitarra direito. Isso é um lado da moeda. Você vê o Brasil cheio de sertanejo e bandas de rock, que tem muitas bandas boas fazendo coisas incríveis e não conseguem estar naquele top, mas ao mesmo tempo, você tem a internet e aprender a criar sua base de fãs, você consegue muito bem viver bem da música, da sua banda, da sua arte, se você souber como funciona o music business, criar as melhores oportunidades, cativar os fãs, criar uma sequência de ações, você consegue elevar um público que sustenta o projeto que você quer realizar sem mudar seu propósito e você consegue viver da música. Então você tem os dois lados da moeda. O profissional tem que levar a sério a profissão, ter conhecimento, saber se posicionar e não esperar cair nada do céu.

Marcelo de Assis: Vai rolar um disco do novo no Megadeth em 2018?

Kiko Loureiro: Daremos uma pausa da atual turnê e depois desenvolveremos algumas ideias com o Mustaine. Vamos nos juntar para conversarmos, mas 2018 teremos esse projeto de fazer um disco novo, com certeza!

É jornalista e pesquisador musical. Cobre shows nacionais e internacionais e já entrevistou bastante gente interessante do Brasil e do mundo. Foi vencedor do Prêmio TopBlog Brasil em 2010 na categoria "Música"e foi membro do Grammy Latino.