ROCK

“The Joshua Tree”, o álbum que mostrou o U2 para o mundo, completa 30 anos

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Na plenitude de seu processo criativo, Bono, Edge, Larry e Adam quebraram as barreiras da música pop nos anos 80 com canções que se tornaram clássicos do rock

Um álbum que nasceu na contramão da música pop e que se tornou pop, no sentido mais nobre da palavra, de forma inevitável: essa é a síntese para entendermos como o quinto álbum de estúdio do U2 tornou-se um sucesso mundial. The Joshua Tree lançado no dia 9 de março de 1987 foi, indiscutivelmente, o disco que projetou os músicos irlandeses, em definitivo, para o estrelato mundial.

O sucessor do excelente The Unforgettable Fire de 1984 seguia com os mesmos produtores, o competente canadense Daniel Lanois e o britânico Brian Eno, este último considerado um dos precursores da técnica de modelagem de som nos anos 70 e ex-membro da banda de art-rock Roxy Music ao lado de Bryan Ferry. Com idéias heterogêneas e criatividade em estado latente, ambos foram determinantes para o processo criativo do U2 e, sucessivamente, para o resultado qualitativo das gravações.

."The Joshua Tree", o álbum que mostrou o U2 para o mundo, completa 30 anos

The Joshua Tree pode ser considerado o resultado de muitas experiências que o U2 angariou durante meses em turnê nos EUA, além da literatura e assuntos políticos, aliados a paisagem norte-americana com os seus contrastes geológicos – cidades modernas e grandes desertos – serviram como inspiração na concepção do álbum: “Havia interesse do Bono pelo deserto do sudoeste dos EUA. Estávamos interessados em escritores norte-americanos como Raymond Carver e A Canção do Carrasco de Norman Mailer, disse certa vez em entrevista, explicando como era extraído o sentido poético para as canções.

O primeiro single a ser trabalho de Joshua Tree foi a obscura e não menos romântica With or Without You que, para quem viveu o mundo musical daquele ano deverá concordar que o seu contexto estava completamente no sentido oposto do que o rock e o pop apresentavam para a época.

A aceitação do público e dos fãs em geral foi imediata: topo das paradas nos EUA e Canadá por três semanas seguidas e capa da revista Time. “As últimas quatro semanas foram muito especiais para o U2. Nosso disco tornou-se numero 1 e saimos na capa da Time!”, disse Bono, antes de cantar I Still Haven’t Found What I’m Looking For em um concerto em Boston no dia 4 de maio de 1987.

O gospel de I Still Haven’t Found What I’m Looking For

Os produtores Daniel Lanois e Brian Eno

 

I Still Haven’t Found What I’m Looking For foi um desejo muito grande do produtor Daniel Lanois em se tornar uma canção gospel, gênero que sempre o agradou muito. Nasceu com as batidas de uma demo com o nome de The Weather Girls mas ganhou personalidade graças ao baterista Larry Mullen Jr, bem observada por Lanois: “Foi uma batida muito original de Larry. Sempre buscamos aquelas batidas que se qualificariam como uma assinatura para a música e certamente era uma daquelas”, disse em uma entrevista.

A letra, que fala da fé e da busca por um ideal, ganhou diferentes versões ao vivo com o U2 em vários de seus concertos e a primorosa qualidade da gravação deste single é algo notável pelos recursos técnicos da época.

Outra canção de grande destaque é Where The Streets Have No Name pela dificuldade com a qual a banda e os produtores tiveram que lidar para a sua conclusão. Mais da metade do tempo para terminar o álbum inteiro foi empregada apenas nesta canção e faltou pouco para Brian Eno apagar ela. Mas o destino foi outro e tornou-se mais um grande sucesso do álbum fechando os três singles de maior sucesso de The Joshua Tree.

B-Sides

Gravada durante as sessões de The Joshua Three justamente no dia do aniversário da esposa de Bono, Ali Hewson, Sweetest Thing acabou não entrando no disco, sendo lançada apenas em outubro de 1998. As vendas do single foram revertidas para o projeto internacional Chernobyl Children’s a pedido de Ali.

Existem outras pérolas “escondidas” em The Joshua Tree que, talvez, nem mereciam o rótulo de B-side, por serem grandes canções, como é o caso de Running to Stand Still e o seu dramático apelo contra as drogas, Mother of Dissappear inspirada durante uma viagem de Bono a El Salvador e de sua aproximação com a Anistia Internacional em apoio as Madres de Plaza de Mayo, além de Bullet the Blue Sky Red Hill Mining Town.

Como nasceu a capa de The Joshua Tree

Em um docmentário, o fotógrafo holandês Anton Corbijn relatou que Bono havia lido uma passagem da Bíblia sobre Josué e que aquilo tinha algum significado para ele. Com isso, Corbijn e Bono, que estavam nos EUA, saíram pela manhã em busca de alguma árvore que tivesse conexão com o referente contexto bíblico e encontraram uma que, segundo Corbijn, cresceu sozinha, o que geralmente seria em grupos.

“Bono veio pela manhã apos aquela noite com a Biblia e procurou pelo episodio de Josue ele leu e sentiu algum significado. Ele achou que deveria ser o ituo do album. Saimos aquele dia para procurar a arvores. Por incrivel que pareça achamos esta linda árvore não vou contar onde, que cresceu sozinha porque esta arvore costuma crescer em grupos”, explicou ao Classic Albums.  “Foi incrivel achar ela sozinha”, disse Corbijn, sobre a icônica arte que ele assinou.

Legado

The Joshua Tree tornou-se um dos álbuns mais vendidos de todos os tempos com 25 milhões de cópiasconcorreu ao Grammy de 1988 vencendo nas categorias Álbum do Ano e Melhor Performance de Rock para Duo ou Grupo. Este trabalho foi responsável pela amplitude artística e comercial que a banda alcançou e de onde nunca mais saiu.

Como certa vez disse Brian Eno, The Joshua Tree deve ser encarado como o “resultado de seis pessoas que foram em diferentes direções, cirando essa coisa estendida, difusa, muito rica e densa em temas relacionados que chamamos de.. disco!”.



É jornalista e pesquisador musical. Cobre shows nacionais e internacionais e já entrevistou bastante gente interessante do Brasil e do mundo. Foi vencedor do Prêmio TopBlog Brasil em 2010 na categoria "Música"e foi membro do Grammy Latino.